cara a cara com allen ginsberg

 

Allen Ginsberg, Sunflower serpent, fotocópia.  © Allen Ginsberg Estate

 

Face To Face [Cara a cara] foi uma legendária série da BBC nos primeiros anos da televisão, uma série de entrevistas de meia hora conduzidas pelo apresentador John Freeman, exibidas entre 1959 e 1962. O formato mostrou-se enormemente influente. Freeman nunca aparecia em frente à câmara nos programas, apenas suas perguntas podiam ser ouvidas. Seus convidados eram filmados em tomadas próximas sob uma luz intensa, como se estivessem sendo interrogados. O formato foi retomado por Jeremy Isaacs em 1990 e usado até 1998. A entrevista com Allen ocorreu em 1994 e foi transmitida em 9 de janeiro de 1995.

Jeremy Isaacs: Allen Ginsberg, você é o mais conhecido poeta dos Estados Unidos, foi figura central da geração Beat, junto com Kerouac e Burroughs, agora sua barba e cabelo estão alinhados, você usa terno com colarinho e gravata, e acaba de lançar um novo livro, Cosmopolitan Greetings [Saudações cosmopolitas], mas o verdadeiro Allen Ginsberg ainda esta aí?

Allen Ginsberg: Bem, sou budista e penso que os budistas diriam que em nenhuma circunstância existe um “eu” real e permanente, e sim há muitas aparências do “eu”, assim, certamente sou um poeta beat, e certamente sou judeu, e certamente sou gay, e certamente sou norte-americano, e certamente sou um praticante de meditação, e, suponho, sou parte da contracultura nos Estados Unidos, que está agora sob ataque dos televangelistas neoconservadores teopolíticos que denunciam a “contracultura McGovernik”, declarando guerra a ela, então, não sei se existe um Allen Ginsberg real mais do que haveria um Jeremy Isaacs real.

JI: Você é membro, como você diz, da contracultura. Na Nova York boêmia, a Nova York de meados da década de 1950, você vivia, você quase foi educado, em uma atmosfera de álcool, drogas e sexo gay e alguma violência. Havia…?

AG: Bem, não havia muita violência. Afinal de contas (éramos) contra a guerra, e estive menos envolvido com violência do que em atividades pacifistas, mas certamente havia bebida, alguns amigos bebiam, nunca fui de beber — drogas, experimentei quase tudo, mas sou mais um workaholic, assim nunca fui viciado em nada com exceção da droga assassina — nicotina, que abandonei muitos anos atrás porque tenho pressão alta, entre outras razões, mas alguns de meus amigos tiveram problemas.

JI: E amigos que… houve mortes entre seus amigos, e mortes violentas entre seus amigos.

AG: Sim… algumas… mas penso que estatisticamente estamos acima da média, afinal, William Burroughs está com 80 anos, e é muito produtivo, Herbert Huncke, que foi, digamos, a personagem beat original, está com quase 80, ou já tem 80 anos, e ainda escreve, e penso que acaba de visitar a Inglaterra. Gary Snyder está vicejando aos 60 anos, como eu. Philip Whalen é agora o abade do Hartford Street Zen Center em San Francisco… Peter Orlovsky está bem…

JI: … e você está sentado na minha frente.

AG: … e Gregory Corso está por aí, escrevendo tão belamente como sempre…

JI: Mas qual era a atração daquele estilo de vida boêmio tão outré?

AG: Bem, você sabe que a boêmia é um estilo de vida muito antigo. Houve Bloomsbury. Havia a mistura de sexo em Bloomsbury que era um de seus atrativos, o de ser possível ser gay sem ter de envergonhar-se disso naquela geração, naquela comunidade. Burroughs era gay, eu era gay, Kerouac era hétero, Neal Cassady, um amigo, era hétero mas aceitava ir para a cama comigo. Havia esse tipo de tolerância, que Keats chamaria de “habilidade negativa”, a habilidade de ter ideias na cabeça sem uma irritável busca do fato e da razão, o essencial aí é “irritável”, um tipo de sentido de tolerância.

JI: Não muito antes, em seus poemas, em “Uivo”, por exemplo, você pôde e quis fazer afirmações explícitas sobre sua sexualidade.

AG: Sim.

JI: Não foi algo difícil no que, afinal, eram os Estados Unidos de McCarthy?

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Cara a cara com Allen Ginsberg | 2011 | d/a magazine
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