nada é verdade:

william burroughs e o budismo

James Grauerholz

William S. Burroughs descansando no quintal de sua casa, 1991. Foto: Allen Ginsberg. © 2010 The Allen Ginsberg Estate. Todos os direitos reservados

William Burroughs não era budista: nunca buscou ou encontrou um “mestre”, nunca fez o voto de refúgio, e nunca fez nenhum voto de bodhisattva. Ele não se considerava budista, e, no que diz respeito a isso, tampouco se declarou seguidor de qualquer fé ou prática. Mas tinha consciência dos fundamentos do budismo e, à sua própria maneira, era afetado pelo dharma do Buda.

Desde sua infância em St. Louis, Missouri, na década de 1920, Burroughs sentia repulsa pela hipocrisia pessoal e social que não conseguia deixar de perceber ao seu redor, mesmo aos oito ou dez anos, e dela se isolava. Era terrivelmente tímido, tinha medo das outras crianças, mas ao mesmo tempo era desafiador em suas crenças e inclinações ― o que incluía sua atração homossexual por alguns de seus colegas de classe. Um sentido de ser fundamentalmente “diferente” dos outros marcou sua infância, e nunca o deixou.

Jean-Paul Sartre dizia: “O inferno são ou outros”; o jovem William Burroughs dizia: “As outras pessoas são diferentes de mim e não gosto delas”. Sua resposta foi desenvolver uma obsessão por armas e por autodefesa, que o acompanhou por toda sua vida. William algumas vezes assumia uma autoimagem exemplificada na letra de um blues da década de 1920, que ele citava com frequência no fim de sua vida: “Sou mau, tão mau quanto um homem pode ser/ Sou mau, tenho um mau coração” [“I’m evil, evil as a man can be/ I’m evil, evil-hearted me”]. Mas seu coração não era assim, não tinha toda essa maldade; havia dentro dele uma base de decência que sempre o impedia de elaborar a si mesmo totalmente nessa direção.

Aos vinte anos, Burroughs frequentou uma série de psicoanalistas, com a esperança de que isso permitisse que se liberasse das restrições psicológicas e reflexos de derrota que sentia como uma maldição. Aos trinta anos, em Nova York, Burroughs conheceu Kerouac e Ginsberg, e depois de um período de vários meses durante os quais conduziu sua própria “análise leiga” dos novos amigos, o vício da morfina, que recentemente adquirira, começou a tomar o lugar de seus esforços analíticos. Abandonaria toda sua fé na psiquiatria aos 45, mas muito antes disso já havia concluído que o modelo freudiano da “cura da neurose através da recuperação do trauma primordial” era superestimado.

Por volta de 1949, Burroughs estava vivendo na Cidade do México com Joan Vollmer, uma jovem brilhante por quem sentia uma profunda afinidade, a despeito de sua homossexualidade essencial. Joan foi morta acidentalmente em 1951, quando William deu um tiro de pistola em um copo que ela colocara sobre a cabeça. Em três anos ele estava vivendo uma vida de excessos sórdidos em Tânger, ainda lutando para compreender como aquilo havia acontecido.

Burroughs sentia que estava defendendo seu Eu não apenas de oponentes externos, mas também de um inimigo interno: o Espírito Repulsivo [Ugly Spirit], como ele chamava. Sentia que estava literalmente “possuído” e invadido por uma personalidade anímica dotada de vontade própria e que contrariava seus melhores interesses. E em seus esforços para compreender o tiro que dera em Joan, não podia mais do que ver uma erupção do Espírito Repulsivo naquele embriagado ato de arrebatamento.

As cartas que envia de Tânger para Kerouac e Ginsberg são um salva-vidas para Burroughs. Na série que escreveu para seus amigos entre 1953 e 1955, encontramos referências à ioga e ao budismo, provavelmente em resposta ao entusiasmo pelas tradições orientais recentemente descobertas que Ginsberg e Kerouac transmitiam em suas próprias cartas para ele (agora perdidas). (Ginsberg inspirara-se a investigar o zen-budismo após ver algumas pinturas chinesas na Biblioteca Pública de Nova York em abril de 1953, e Kerouac encontrara Uma bíblia budista, de Dwight Goddard, na biblioteca de San Jose, na Califórnia, em 1954.)

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Nada é verdade: William Burroughs e o budismo | 2011 | d/a magazine
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