o sol do grande leste:

recordações de infância

Monty McKeever

Foto: © 2011 Lee Weingrad. Todos os direitos reservados

No dia em que nasci, Chögyam Trungpa Rinpoche veio me ver. Segurou meu pequeno corpo de bebê e exclamou com alegria: “Não esperava ver VOCÊ aqui!”. Então disse suavemente a palavra bodhichitta, termo sânscrito para “mente do despertar”, e deu-me o nome de nascença “Sharchen”, que significa “Grande Leste”.

Com menos de um dia, não lembro de absolutamente nada desse primeiro encontro, mas me lembro vividamente de Trungpa. Lembro do som de sua voz ao falar, um tanto elevada e com algo que mais tarde descobriria ser um sotaque tibetano com inflexão britânica, adequada e precisa. Lembro-me mais ainda de sua risada ― um som que trago comigo até hoje, como algo que somente posso descrever como a frequência da pura e autêntica alegria. Lembro-me, muito claramente, das caras engraçadas que ele fazia para mim, seus sorrisos largos e olhos extremamente brilhantes. Também me recordo das ocasiões em que falava mais seriamente, da imagem de seu rosto e de seus movimentos, como ele se sentava em uma cadeira para dar palestras que minha mente de criança não podia compreender, para um público que parecia, para minhas formas minúsculas, um oceano infinito de gigantes no meio do vermelho e do dourado brilhantes de uma lotada sala de meditação de Shambhala.

Sim, embora essas recordações sejam claras, elas são memórias distantes de uma criança que é hoje adulta. Hoje, parecem mais sonhos do que qualquer outra coisa, e acho que de certo ponto de vista realmente são.

Meu pai, Norbu, na época conhecido como Bill, era aluno de Trungpa desde o começo da década de 1970 e é hoje um acharya [professor sênior] na tradição de Shambhala. É assim que ele se lembra de Trungpa:

Trungpa Rinpoche era um professor extraordinário. O que o fazia tão extraordinário era como ele expressava a sabedoria atemporal do budismo tibetano com o calor e o brilho do amor incondicional por seus alunos. Apesar de nossas variadas neuroses, ele tinha uma confiança alegre, gentil e inabalável em nossa natureza desperta inata, na bondade fundamental de todos os seres humanos. O poder desse amor transformou nossas vidas. Inspirou em nós a confiança em que, independentemente das dificuldades que enfrentamos, sanidade, gentileza, humor e amor estão sempre ao nosso alcance. “Sol do Grande Leste” era como ele chamava essa fonte constante de brilho e esplendor. “Grande” porque somos todos maiores que nossa mesquinhez habitual. “Leste” no sentido em que o sol nascente está sempre se levantando; há sempre ao nosso alcance uma visão orientada para a frente, esse é um recurso sempre presente. Sol porque essa sabedoria inata ilumina as trevas da ignorância, aquece o coração frio, covarde e solitário. Isso não era teoria. Não era abstrato. Era assim que nos sentíamos em sua presença, sendo alunos seus.

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O Sol do Grande Leste: recordações de infância | 2011 | d/a magazine
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