o professor contemplativo:
uma visão de longo prazo (1)
Lee Worley

Foto: © Zsolt Zsoló Kóté
Quando observamos a comunicação entre pais e filhos, ou entre professor e aluno, prontamente vemos que relações são fundamentais para o aprendizado. Além dessas relações primárias, há inúmeras relações entreligadas que podem tanto ajudar como ser um entrave para o aprendizado: entre um aluno e os demais, um professor e os demais, a classe e o professor, e entre ambos e o espaço, o tempo e o meio. Ampliando o círculo ainda mais, vemos o efeito de outras relações, como a do professor com os pais, do aluno com os pais, professores e administradores e, é claro, do professor e do aluno com o próprio tema de estudo. Relações, ou a falta delas, realmente importam.
Talvez a própria obviedade desse truísmo obscureça sua importância. Sem deter-me aqui em investigar por que as relações têm sido tão marginalizadas, ignoradas ou deixadas ao acaso nas arenas do ensino e do aprendizado, proponho a discussão de uma abordagem para sanar essas falhas e retornar à conexão que é o coração do processo de aprendizado. Essa abordagem é chamada de “educação contemplativa”, e ela começa com a mais íntima das relações ― a relação consigo próprio.
“Educação contemplativa” é uma expressão crescentemente popular na educação superior nos Estados Unidos. Isso não me surpreende. Há trinta anos, Chögyam Trungpa, mestre tibetano de meditação que havia sido transplantado para os Estados Unidos, identificou o que não estava funcionando no sistema educacional do país e, como consequência, fundou o Naropa Institute. Percebeu que a educação deve falar ao todo da pessoa, treinar corpo, mente e espírito, e também treinar a relação de corpo, mente e espírito com o meio na escala mais ampla possível. Isso era verdadeiro na época, é verdadeiro hoje e continuará a ser verdadeiro à medida que avançarmos pelo século XXI. Isso permanece verdadeiro a despeito das inovações tecnológicas dos computadores e de outros aparelhos que possam surgir. Surpreendentemente, levou algum tempo para que o sistema educacional norte-americano reconhecesse essa necessidade de uma educação que transcenda a informação factual em áreas delimitadas de especialização e, em vez disso, tenha como foco a transformação de todo o ser e de sua relação com seu mundo. Fundações como o Center for Contemplative Mind and Society e o Fetzer Institute recentemente começaram a proclamar que “uma sociedade verdadeiramente democrática requer um sistema de educação superior que treine os alunos no insight reflexivo tanto quanto seu pensamento crítico”. [1]
Esse é um aprendizado que inclui a reflexão tanto quanto a análise, tem como foco o crescimento pessoal tanto quanto o domínio de habilidades, desenvolve tolerância pela ambiguidade, abertura para rever suas posições, a imaginação como caminho tão importante para a compreensão quanto a argumentação racional. [2]
Ainda que leve algum tempo para que o sistema dominante perceba isso, na Naropa University e em outros lugares essa abordagem vem recebendo atenção. A questão é: como podemos oferecer tal educação?
O que surge de maneira urgente e frequente nas discussões em Naropa é a necessidade de encontrar uma linguagem que explique o que queremos dizer com “educação contemplativa”. Como podemos ensiná-la e promovê-la se não podemos falar sobre ela, descrevê-la, rotulá-la? Como até mesmo podemos saber o que ela é se não a podemos explicar em nosso catálogo e em nosso site? Alguns de nós, que acompanharam Naropa em seus primeiros dias, têm dúvidas sobre esse processo de categorizar e rotular. Há trinta anos, quando trouxemos para nossa mente de principiante a tarefa de criar esse modelo educacional, não o chamávamos de “educação contemplativa”, e não chamávamos Naropa de universidade. A maioria de nós éramos um grupo de professores, filósofos e artistas insatisfeitos que haviam começado a meditar, ou ao menos pensavam em fazer isso, e que estavam intrigados para explorar aquilo que a mente meditativa poderia trazer para as maneiras como abordamos nossas formas artísticas ou disciplinas acadêmicas. Mais importante, estávamos interessados em saber se havia uma maneira de melhorar, tanto nossa mente como a educação.
Em retrospecto, penso que foi nossa sorte termos contado com tão poucos recursos em meados da década de 1970. Não havia como nos tornarmos importantes rapidamente. Não havia dinheiro, espaço, profissionais de marketing, e tínhamos muito poucos alunos. Tínhamos tempo para explorar a mente meditativa, trabalhar as coisas com simplicidade: o corpo como corpo, pensamentos como pensamentos, o espaço como o espaço que tínhamos, ajustando as coisas à medida que seguíamos como apenas iniciantes conseguem. Sem a pressão para criar experiências de aprendizado pensadas para que alunos fossem aprovados nos testes, dávamos aos nossos alunos nossa experiência e eles, por sua vez, sintonizavam-se com a meditação e deixavam de lado a competição do jogo do aprendizado e generosamente devolviam-nos sua experiência. Nenhuma fórmula pode substituir essa abordagem do aprendizado baseada em tentativa e erro. Trinta anos de histórias de luta e perseverança dos professores de Naropa, que sacrificaram conforto e reconhecimento em prol de sua prática de meditação, não podem ser desdenhados no desenvolvimento de sua mensagem contemplativa.
Minha sugestão, como a de outros, é que para oferecer uma educação contemplativa é preciso começar com um professor contemplativo, um educador contemplativo. À medida que Naropa University assume um papel no meio acadêmico, ela tem uma responsabilidade de compartilhar suas descobertas e seu legado. Que o ponto de partida seja o desenvolvimento do professor é uma boa notícia, pois isso significa não depender do apoio da administração, ou de um conteúdo acadêmico especial, do espaço perfeito, ou da permissão dos pais para passar uma mensagem contemplativa. Dar forma a essa mensagem por meio do corpo e da fala ― como escutamos e o que notamos ― pode ser mais confiável do que qualquer estrutura filosófica. Existem, é claro, técnicas que oferecem apoio ao professor contemplativo. Escutar o som de um sino ou de um gongo, manter a sala limpa, criar um pequeno altar, fazer uma pausa entre as atividades, ou uma reverência antes e depois de cada aula, dispor de maneira diferente as cadeiras e alternar entre atividades físicas e mentais ajudam a facilitar uma mensagem contemplativa, mas a educação contemplativa não é um traje nem uma teoria. Essas mesmas técnicas poderiam beneficiar qualquer situação de ensino, ou poderiam ser uma simples fórmula. Sem testá-las no fogo da mente contemplativa, elas são principalmente embaraçosas, talvez um pouco estranhas, e logo serão abandonadas pelo professor que não está fazendo o “trabalho interior” necessário.
O professor contemplativo
Se começamos a pensar no significado de “contemplativo” como um verbo ativo, o professor contemplativo é alguém que contempla coisas. Troquemos por uma forma adjetiva e teremos: o professor que contempla, a educação que contempla. “Contemplativo” implica escutar profundamente, ouvir profundamente, questionar profundamente, considerar, consideração, trazer todo o corpo e a mente para testemunhar o momento. Despido das conotações “espirituais”, ou que remetem a um tipo de claustro, o professor contemplativo é nada mais do que alguém capaz de escutar completamente o aluno, o assunto e o momento, de maneira calorosa, sem medo. Não há nada único aqui.
“Minha religião é a gentileza”, responde o Dalai-Lama quando lhe perguntam sobre sua religião. Um professor contemplativo é, acima de tudo, um professor gentil. O budismo ensina que a gentileza, ou maitri ou metta, começa com sermos gentis com nós próprios. Não teoricamente, mas de fato, quando somos bons com nós mesmos, manifestamos bondade e somos naturalmente bons para os outros seres. Como podemos aprender isso? Ou melhor, como sabemos quando não estamos sendo bons conosco? Ser bom consigo é permitir-se um chocolate depois de um dia difícil? A corrida pelo quarteirão pela manhã? Ficar doente para ter um dia de folga? Realmente sabemos quando estamos sendo gentis com nosso corpo, nossa mente, nosso espírito? Não é fácil para os ocidentais aceitar que a bondade fundamental, ou bodhicitta, a bondade que é a base da vida, seja a natureza das coisas. Podemos citar inúmeras razões históricas para isso, é claro. Em Shambhala: a trilha sagrada do guerreiro, Chögyam Trungpa diz:
Nunca tendo desenvolvido simpatia ou gentileza por si próprios, eles não podem experimentar em si mesmos a harmonia ou a paz e, portanto, o que projetam para os outros também é desarmonioso e confuso. Em vez de apreciar nossa vida, frequentemente consideramos garantida nossa existência, ou a achamos deprimente e opressiva. [3]

Foto: © Zsolt Zsoló Kóté
Meditação
A primeira tarefa do professor contemplativo é descobrir tanto em seu corpo como em sua mente uma confiança inabalável em que essa bondade seja fundamental, intrínseca, firme. Isso não ocorrerá apenas amarrando nossas armações conceituais, tampouco a partir de uma exploração psíquica, embora esta possa acompanhar o trabalho de descoberta que fazemos conosco. Precisamos de fato sentar, parar de apenas fazer coisas e começar a observar o que se passa no que chamamos de “mente”. No budismo, isso é chamado de meditação.
Precisamos meditar. O que os budistas chamam de meditação ou prática sem forma é chamado, em algumas tradições católicas, de contemplação, para as quais a palavra meditação se refere a meditar sobre alguma coisa. Meu mestre tibetano, Dzogchen Ponlop Rinpoche, considera o budismo uma “ciência da mente”.
Meditar significa familiarizar-se com algo, um padrão ou uma experiência. A meditação é fundamentalmente um método para desenvolver realização e familiarizar-se com a própria natureza fundamental da mente. Portanto, a prática da meditação ― qualquer que seja a prática ― deveria ser algo que nos ajude a desenvolver nossa força mental, a força da atenção plena, a força da paz interior e a força para lidar com as emoções negativas e perturbadoras de nossa mente. [4]
A meditação (ou contemplação) é uma ferramenta para investigarmos a mais pessoal das experiências: quem sou eu? Para desenvolver gentileza por mim mesma, preciso examinar longamente o que chamo de “mim mesma”, de modo que possa começar a apreciar a bênção de ter um corpo e uma mente, a base de trabalho para amar e elevar nosso mundo.
Algumas vezes, a meditação é também associada a alcançar um estado mais elevado da mente, a entrar em algum tipo de estado de transe ou de absorção. Mas aqui estamos falando de um conceito de meditação completamente diferente: meditação incondicional, sem nenhum objeto ou ideia em mente. Na tradição de Shambhala, a meditação é simplesmente treinar nosso estado de ser, de maneira que nossa mente e nosso corpo possam ser sincronizados. Com a prática da meditação, podemos aprender a ser, sem ilusão, ser totalmente genuínos e vivos. [5]
Existem outras maneiras além da meditação para realizar esse deslocamento radical de um fazer externo para uma escuta interna? Alguns dizem que não. Minha sensação é que, na medida em que a meditação é simples, não exige muitos aparatos nem precisa de equipamentos caros, na medida em que pode ser praticada por qualquer um, em qualquer lugar, por que procurar em outros lugares? Mas esse processo leva tempo. Como professores, sabemos que é preciso tempo para que os alunos aprendam algo. Compreendemos que, sem repetição e integração, a lição não será fixada. Por que deveríamos esperar que nossa própria curva de aprendizagem seja mais acelerada do que a de nossos alunos? O que nos faz pensar que há uma solução fácil para nos tornarmos gentis conosco? Podemos ser mais gentis com nossos alunos se nos comportamos em concordância com essa mensagem de paciência. Precisamos de tempo para praticar. A vida leva tempo!
Aspiração
O professor não precisa esperar até que a mente meditativa tenha produzido uma transformação para entrar em sala de aula. Com a prática, “eu primeiro” se transforma em “nós”, e enfim em “todos os seres são meus convidados”. É notável como os esforços diligentes do meditador para desenvolver uma prática de meditação começam a temperar sua manifestação no mundo imediatamente.
Quando o Naropa Institute foi inaugurado, em 1976, a maioria do corpo docente estava apenas começando a experimentar a prática da meditação. Ela não havia tido tempo para operar sua mágica em e sobre nós. No entanto, estávamos bastante comprometidos com ela e com o florescimento de Naropa nos Estados Unidos. Para um professor contemplativo iniciante, é frutífero que alguns momentos de contemplação de sua aspiração precedam a prática diária de meditação. Seja honesto com isso. É melhor exprimir como aspiração o desejo de que a meditação permita que você seja tolerante com as bizarras interrupções de Jamie do que perder tempo teorizando sobre um mundo perfeito. Por que você quer ser um professor contemplativo hoje? O que você espera alcançar para si mesmo e para aqueles que você ensina hoje? A aspiração poderia ser algo totalmente diferente na próxima vez. Nossos alunos de pós-graduação em educação relatam que em seu primeiro intensivo de verão, após apenas quatro semanas de meditação diária, eram capazes de manifestar-se de maneira diferente (e obter resultados diferentes) em sala de aula. No entanto, esse é apenas o começo de uma vida contemplativa.
Aspirar e meditar são a base e o fundamento e nunca se tornam passé, mas por si sós não fazem um professor contemplativo. Ao deixarmos a almofada de meditação e entrarmos em nossa atividade cotidiana, as pressões da vida moderna sacudirão nossa mente contemplativa e voltaremos para nossa atividade de sempre. Chamo isso de “reatividade reflexa”. Nem sempre será assim, mas isso será verdadeiro por muito tempo. Parte de sermos gentis conosco depende de relaxarmos diante de nossas imperfeições e retrocessos nessa área. Quando amorosamente aceitamos mesmo as piores partes de nossa personalidade, começamos a nos identificar como um educador contemplativo. E mesmo essa aceitação é fugidia e instável e precisa ser constantemente treinada.
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[1] The Center for Contemplative Mind in Society, www.contemplativemind.org.
[2] Marilyn McEntyre, Westmont College, Santa Barbara, CA, citada em Survey of Transformative and Spiritual Dimensions of Higher Education, pesquisa publicada pelo Fetzer Institute e disponível em www.contemplativemind.org/resources/pubs/fetzer_report.pdf, p. 14, c. 2004.
[3] Chögyam Trungpa, Shambhala: a trilha sagrada do guerreiro.
[4] Dzogchen Ponlop Rinpoche, Shamatha, p. 9.
[5] Chögyam Trungpa, Shambhala.
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Foto: © Zsolt Zsoló Kóté
Lee Worley foi uma das fundadoras, atriz e diretora do Open Theatre, juntamente com Joseph Chaikin, um dos nomes seminais da vanguarda teatral do século XX. Excursionou pela Europa com The Living Theatre e foi professora de interpretação teatral na New School for Social Research e no Sarah Lawrence College, ambos em Nova York. Lee também foi uma das fundadoras, em 1974, do Naropa Institute (atualmente, Naropa University), onde, a pedido de Chögyam Trungpa, organizou o Departamento de Teatro. Atualmente vive em Boulder, Colorado, e atua como diretora dos cursos de Teatro e de Artes Integradas da Naropa University. É autora de Coming from nothing: the sacred art of acting, e uma de suas áreas de interesse são os efeitos do ensino de teatro nas mudanças sociais.
Texto: © 2010 by Lee Worley. Todos os direitos reservados. Este texto está sendo publicado por Dharma/Arte por acordo com a autora e não pode ser arquivado ou distribuído sem a autorização escrita da autora.
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