linhas brancas

David M. Smith


Foto: © Corey N. M. Kohn

Por muitos anos tive a ilusão de que havia alguma maneira de evitar a primeira nobre verdade do Buda. Se eu fosse capaz de organizar as condições em minha vida da maneira certa, poderia experimentar o prazer e evitar a dor, se não o tempo todo, ao menos a maior parte dele. Busquei esse refúgio nas drogas, no álcool, no sexo, nos aplausos, na fama e em qualquer objeto ou substância que resultasse em gratificação imediata. Agarrava-me a isso, desejava isso de maneira constante e consistente, acreditando que traria felicidade e prazeres permanentes. De muitas maneiras estava viciado pela experiência do prazer. É desse desejo constante que o Buda trata no ensinamento da origem dependente, e fundamentalmente ele era a causa de todo meu sofrimento. Paradoxalmente, perseguir o prazer e evitar a dor resultou em tanto sofrimento que finalmente tive de render-me à verdade. Tinha de enfrentar a mentira que por muito tempo havia contado a mim mesmo.

“White lines” [“Linhas brancas”] (clique na seta para escutá-la) é uma música sobre dor e redenção. Representa minha total admissão e reconhecimento da primeira nobre verdade ― a de que nesta vida existe sofrimento. A música ilustra como vejo a dor e o sofrimento em nós mesmos, em nossos relacionamentos com os outros e com o mundo em geral. Não podemos começar a crescer espiritualmente a não ser que nos rendamos a essa verdade. Em minha própria prática repetidas vezes descobri a verdade disso. A admissão e o reconhecimento de meu sofrimento e do sofrimento que causei se tornaram os alicerces para o crescimento espiritual e para o contentamento, para uma vida útil. Essa música é minha tentativa de explicar o processo pelo qual passei para recuperar-me ― não apenas do alcoolismo e da dependência mas também do constante desejo em meu coração e em minha mente. Abaixo repasso cada estrofe e o coro, e faço meu comentário.

Estrofe I

Então me coloque para baixo, como as linhas brancas na estrada me leve para longe, longe daqui
Tanto tempo passou e nada do que construímos aqui era para durar, e destruímos tudo.
O que eu fiz? O que eram as palavras horríveis que disse, na noite em que você fugiu?

Tudo o que encontrei, uma espingarda enferrujada deitada no chão no outro lado da cidade.

[So put me down like white lines on the highway bring me far, far away from here.
So much time has passed nothing we built here was meant to last, so we tore it down.
What did I do? What were those awful words I said to you, the night you ran away?
All I found, a rusty shotgun lying on the ground on the other side of town.]

Nesse verso a estrada representa a vida, representa minha inabilidade para enfrentar as dificuldades da vida, sempre fugindo da dor. As linhas brancas representam a consistência desse processo de esquivar-se, assim como as linhas brancas sobre a estrada sempre estão lá, sempre seguindo e nunca tendo um fim. Como o ciclo do samsara. Uso o sofrimento da dependência como metáfora, como um relacionamento que chegou ao fim. Assim como no fim de um relacionamento íntimo, sempre existe dificuldade e dor, por causa do apego a esse relacionamento. Nesse caso, também estão envolvidos abuso e dependência, pois, embora esse relacionamento causasse muita dor e sofrimento, por muito tempo ele também foi muito familiar, era tudo o que eu conhecia. O sofrimento era tão familiar que era difícil abrir mão dele. A espingarda enferrujada representa a ilusão ― a confusão sobre se aquela espingarda, ou a relação com a dor, é uma arma ou uma ferramenta, hábil ou inábil. Pareceu funcionar por tanto tempo que parecia ser a solução para o meu sofrimento, mas no fim transformou-se em uma arma, uma corrente que se virou contra mim, virou a mim mesmo contra mim. Na verdade, ela representa a avidez, o ódio e a ilusão, porque no fim foi tudo o que encontrei. O Buda descreve a avidez, o ódio e a ilusão como os três estados nocivos. Havia sido consumido pelos três, se não todo o tempo, a maior parte dele.

Coro:

Não há cura, não podia mais continuar.
Era apenas como uma tempestade que se formava.
Desfazendo-se tão rápido, destruindo sonhos como um vidro estilhaçado. Deixando-me com raiva.
Perdido sem nenhum lugar para esconder os olhos lacrimejantes.

[There ain’t no cure I could not take it anymore.
It just kept building like a storm.
Rolling on so fast, breaking dreams like shattered glass. It leaves you angry inside.
Left lost with no place left to hide your teary eyes.]

O coro explica-se razoavelmente a si mesmo. Representa a redenção, a aceitação, a sabedoria que frequentemente nasce do sofrimento e da confusão. Ver a verdade como ela verdadeiramente é, permitir-se finalmente sentir o sofrimento e compreender a causa do sofrimento. Essa verdade pode ser dolorosa e difícil de aceitar ― fundamentalmente somos todos impotentes diante da primeira nobre verdade. Existe dor nesta vida. O Buda diz que existem dois tipos de sofrimento: 1. o sofrimento que traz o fim do sofrimento, e 2. o sofrimento que traz mais sofrimento. Em seguida, o Buda diz que, se não formos capazes de aceitar esse primeiro tipo de sofrimento, então certamente continuaremos a experimentar o segundo tipo de sofrimento. Chegar a um acordo com essa primeira nobre verdade, render-se a ela, é a prática do tipo de sofrimento que traz o fim do sofrimento. Essa é a verdadeira mensagem desta música.

Estrofe II

Então me tire daqui, porque estou esgotado, cansado de perambular, perdido em minha própria cidade.
Passei tantos anos trancado na estrada mas estou de volta, de todas as maneiras abandonado.
Fiz o melhor que pude para mudar, algumas coisas demoram para morrer, velhos hábitos são difíceis de deixar e alguns demônios estão aqui para ficar.
E o que encontrei, uma guitarra empoeirada sobre o chão neste lado sujo da cidade.

[So take me out, cause I’m sick and tired of hanging around, lost in my hometown.
So many years have passed I been strung out on the road but I made it back, forsaken in every way.
I done my best to change, some things die hard, old habits are hard to break and some demons are here to stay.
And what I found, a dusty guitar lying on the ground on that dirty side of town.]

Nessa estrofe, minha própria cidade representa minha vida antiga, o relacionamento do qual falei na primeira estrofe. Esgotado e cansado de lutar e pronto para seguir em frente e pedir ajuda para isso. Pedir (a deus, ao dharma, ao universo, ao karma, chame como quiser) para sair dessa. Seguir e oferecer minha reflexão sobre ter saído desse processo, vendo-o do outro lado. Enxergar o ciclo todo desse movimento cármico. Reconhecer que existe redenção e liberação no sofrimento. Conhecer e reconhecer o esforço para mudar, que é um processo gradual, um despertar gradual. Tantas coisas das quais é difícil abrir mão, nosso coração, nossa mente profundamente condicionados, é preciso um esforço contínuo para sair dessa. Reconhecer que a avidez, o ódio e a ilusão ainda estão enraizados no coração e na mente e aprender a responder a eles com sabedoria e compaixão, e não com apego e aversão.

O que encontrei, a guitarra empoeirada no lado sujo da cidade, representa que foi na escuridão da alma que encontrei a vontade e a força para mudar. Foi no sofrimento que pude ver a verdade do sofrimento. Tive de ver que não podia evitá-lo mas podia cultivar uma relação com ele com a qual pudesse lidar. Cultivar a generosidade, a gentileza e a sabedoria é o antídoto à avidez, ao ódio e à ilusão. Esse é o caminho que o Buda aponta.


David M. Smith

Visite o site de David M. Smith: www.country-rebelrecordings.com.
A música “White Lines” é parte do álbum Dhamma Gita. Clique aqui para mais informações.

Texto e música: © David M. Smith. Texto e música publicados por Dharma/Arte Magazine em acordo com o autor. Proibida a reprodução por qualquer meio sem autorização escrita.
Foto (alto da página):
© Corey Kohn. Visite os sites de Corey Kohn: http://www.coreykohn.com e http://public.fotki.com/coreykohn.

Linhas brancas | 2010 | d/a magazine | Comentário/Comments (1)
  • Kathy Alves

    Great article. The last sentence of this article are words to live by.

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