felicidade impossível:

uma elegia para peter orlovsky

Steve Silberman

Allen Ginsberg, Peter Orlovsky, Julius Orlovsky e fotógrafo não identificado. Cherry Valley, 1980. Foto: Cliff Fyman
English version:
http://j.mp/bmtGPr

A saxífraga é minha flor que rompe as pedras
[Saxifrage is my flower that splits the rocks]
— William Carlos Williams

Na noite em que encontrei Allen Ginsberg em 1976, seu companheiro de vida Peter Orlovsky ergueu um lenço até o nariz de Allen uma fração de segundo antes que ele espirrasse. Estávamos em um clube em um porão de Greenwich Village, celebrando a morte de Neal Cassady, um dos grandes amores de Allen, e musa de Pé na estrada [On the road], romance de Jack Kerouac. O poeta estava muito resfriado, e era sua segunda leitura na noite.

Antecipar-se a Allen em sua necessidade de um lenço era apenas uma maneira como Peter manifestava o que a fotógrafa Elsa Dorfman chamou de sua “sublime sensibilidade e cuidado”, em um email a um amigo depois da morte de Peter no último domingo [30/5/2010]. Crianças, animais, tudo o que crescia adorava Peter. Imediatamente antes de escrever “Uivo”, Allen empenhou seu amor a Peter, reconhecendo nele um personagem saído de um romance russo: um pastor santificado, um sagrado inocente. Na cafeteria de Foster em San Francisco, em 1955, os dois homens apertaram as mãos e juraram nunca irem para o céu a não ser que o outro nele também entrasse — uma verdadeira união de almas. “Naquele instante olhamos um para os olhos do outro”, escreveu Allen, “e um tipo de chama celestial caiu sobre nós e nos incendiou e iluminou toda a cafeteria e fez dela um lugar eterno.”

Por insistência de Allen, Peter também se tornou poeta. Em 1978, a editora City Lights publicou uma coletânea de seus trabalhos com o memorável título Poemas do cu limpo e Canções do legume sorridente [Clean asshole poems and Smiling vegetable songs]. (Os legumes eram os que Peter cultivava com entusiasmo incansável na fazenda orgânica do casal em Cherry Valley, no estado de Nova York, adquirido para ser um descanso da agitação e das tentações das drogas no bairro em que viviam no Lower East Side.) Embora ninguém comparasse a produção criativa de Peter à de Allen, seus poemas — às vezes de apenas uma linha — podiam ser singularmente puros e surpreendentes, até mesmo luminosos.

O poeta Thom Gunn certa vez me disse que William Blake, poeta e artista britânico do século XIX — que Ginsberg adotara como seu primeiro guru —, havia escrito na voz de uma criança adulta desgostosa, um homem crescido que via o sofrimento do mundo livre dos filtros da sabedoria convencional e da maturidade enfadonha. Assim também era Peter, respondendo empaticamente a cada ser senciente ao seu redor, de um leproso faminto nas ruas de Benares a um porco com a mandíbula quebrada em sua fazenda. Mesmo a ortografia idiossincrática de Peter (seu primeiro poema [first poem] foi publicado com o título “Frist poem”) exigia sua própria vitalidade desimpedida; seus poemas eram como ervas daninhas estultas e gloriosas, florescendo nas brechas da linguagem “poética” oficial.

Peter Orlovsky. Cherry Valley, 1979. Foto: Cliff Fyman

Felicidade impossível disse a lua afinando sua guitarra
[Impossible happiness said the moon tooning its guitar]

Meu coração está sempre não no lugar certo
[My heart is always not in the right place]

Simplesmente não esperava ver a mesma
horrível e infestada condição no
lado exatamente oposto do corpo dela —
Estava agora mais surpreso e
atônito — e agora Olhava
dentro dos olhos dela & ela tinha
olhos calmos de um profundo oliva pacíficos dóceis tristes
olhos que pareciam me dizer
estou bem — é gentileza sua
ter trazido comida para mim
e quero agradecer
mas não sei a sua Língua
então digo sileciosamente com meus
olhos…

[I just dident expect to see the same
horrible infested condition on the
exact opposite side of her body —
I was now more surprissed and
taken aback — and now I Looked
into her eyes & she had very
dark olive calm eyes peasefull sweet sad
eyes that seemed to tell me
I am okay — its nice of you
to have some food brought to me
and I want to thank you
but I don’t know yr Language
so I say silently with my
eyes…]

Alguns meses depois da leitura no Village, tornei-me um dos alunos de Allen na Jack Kerouac School of Disembodied Poetics do Naropa Institute, em Boulder, Colorado. Outros de meus heróis escritores, como William Burroughs e Gregory Corso, também ensinavam lá, assim como mestres budistas como Jack Kornfield e Taizan Maezumi-roshi, fundador do Los Angeles Zen Center, que me mostraram como meditar. Allen acreditava que a melhor educação provinha não de ruminações sobre quebras de versos e metáforas em oficinas sufocantes, e sim da convivência com poetas, vendo como sua mente funciona em situações comuns. (Em uma tradicional história hassídica, um jovem diz que vai em peregrinação até um renomado rabino não para discutir a torá, mas para vê-lo amarrar suas botas.)

Uma virtude dessa abordagem era que ver um famoso poeta de cuecas pela manhã, virando as páginas do New York Times, tendia a desfazer as exaltadas ilusões de qualquer um. Os ícones da geração beat transpiravam, fofocavam, eram ranzinzas por coisas insignificantes, arrastavam-se até o supermercado (exceto quando me faziam ir às compras em seu lugar), paqueravam desajeitadamente atraentes jovens poetas e tinham egos enormes e muito frágeis. Em suma, eram uma grande confusão, mas como meu amigo e poeta budista Marc Olmsted enuncia no melhor estilo de Burroughs, “este é o samsara, querido, e somos todos uma confusão”.

Mas eles conseguiram — o Verdadeiro Trabalho de criar poemas, construir uma comunidade e encorajar uns aos outros a serem honestos, conscientes e despertos diante da ardente beleza de cada momento que passa, de cada respiração. Em Naropa, vida, arte e prática budista eram indistinguíveis. Esse era o ponto.

Dito isso, quando comecei a ir pela manhã ao apartamento de Allen na cidade para transcrever suas anotações, fiquei um pouco chocado ao encontrar Peter roncando no sofá, como um belo aspirante beat expulso do quarto em uma toalha. Foi apenas anos depois que compreendi melhor os intrincados arranjos de Allen e Peter. Embora fossem o primeiro casal gay do qual muitos ouviram falar, Peter não era, em nenhum sentido estrito, gay. Ele tinha maior atração física por mulheres, e reagia a elas de uma maneira da qual Allen era incapaz. Ambos tinham paralelamente outros amantes. Então por que Peter virtualmente se casou com Allen?

Porque adoravam-se um ao outro. Eram irmãos de alma, para além de categorias. Sua devoção e seu amor mútuos era outra erva daninha que florescia nas brechas — uma felicidade impossível.

Não que o impossível fosse fácil. Em meu primeiro verão em Naropa, Peter estava em maravilhosa forma física. Estava bronzeado e musculoso por causa do trabalho na fazenda, meditava muito e tinha alimentação saudável. (Como Allen, ele propagandeava as virtudes salvadoras da última linha de alimentação saudável a que aderira, do pólen de abelha à macrobiótica. Em uma típica manhã na fazenda, em 1979, ele disse ao jovem poeta Cliff Fyman: “O melaço da cana faz bem para a sua merda e fará com que se sinta uno com o universo e com o ciclo natural da terra!”.) Mais importante, Peter não estava bebendo ou usando drogas pesadas naquele verão. Ele radiava. Sempre querendo ajudar, era o motorista de famosos poetas, músicos e gurus na região de Boulder, conservava impecável a casa da cidade, e oferecia apoio a Allen, que estava mais irritadiço do que o usual, talvez porque seu pai Louis havia falecido poucos meses antes. Peter mantinha um olhar benevolente para com os membros do círculo de Allen mesmo quando Allen estava muito ocupado sendo uma celebridade para fazer isso. No dia em que disse a Peter que estava indo para San Francisco pela primeira vez, ele deu um tapinha na minha testa de 19 anos e disse: “Oooh, não vá arrumar problemas”.

Peter sabia o que eram problemas. Cresceu em Long Island, quando os Orlovsky eram tão pobres que viviam em um galinheiro. A mãe, irmãos e irmã de Peter passaram a maior parte de sua vida em instituições, lutando contra a esquizofrenia, o retardamento mental e outras condições. Sua mãe Kate havia ficado surda e parcialmente paralisada em uma cirurgia grosseira feita por um médico bêbado. Não surpreende que Peter tenha se tornado um jovem sensível ao sofrimento dos outros. Quando Allen o encontrou, em 1954, Peter havia sido honrosamente exonerado do exército — onde trabalhara como motorista de ambulância — por dizer a um psiquiatra: “Um exército com armas de fogo é um exército contra o amor”. As fotografias de Peter com sua família dão um aperto no coração: o santo inocente em um campo de carniça.

Juntos, Peter e Allen viajaram por toda parte, semeando por todo mundo sementes de poesia, ternura, candura pública e de budismo norte-americano. Passaram um tempo com Burroughs em Tânger, fumaram maconha e contemplaram cadáveres em chamas nas escadarias ao longo do Ganges, escreveram como fãs uma carta a Charlie Chaplin em Benares e visitaram o jovem Dalai-Lama em Dharamsala. Também meditaram lado a lado nos trilhos de uma estrada de ferro em Denver para bloquear a entrega de material radioativo à vulnerável usina nuclear de Rocky Flats. Frequentemente, leituras de Allen em ilustres instituições acadêmicas eram acompanhadas de Peter cantarolando à vontade com seu banjo as alegrias de revolver a merda na fazenda.

Peter Orlovsky e seu irmão Lafcadio Orlovsky na casa da mãe de Peter. Huntington, Long Island, 29 de outubro de 1979. Foto: Cliff Fyman

Framboesas com seu pequeno chapéu vermelho
Como amamos colher vocês na luz da manhã
Nunca vou esquecer quão dóceis vocês são!

[Hay Rassberrys with your little red hat on
How we love to pick you in the early morning light
Never will I forget how sweet you are!]

Eis que, quando retornei a Naropa em 1987 para ser professor assistente de Allen, era Peter que tinha problemas. Estava usando drogas pesadas, ficava furioso com frequência, e meteu-se em uma briga de bêbados com o psicólogo britânico R.D. Laing, a qual resultou no sexagenário Allen machucando o joelho e o cóccix, e fraturando o dedo mindinho quando a polícia acidentalmente o jogou no chão. (“A calçada se levantou e me golpeou na bunda!”, disse Allen aos amigos.)

Os genes de Peter estavam se armando contra ele. Seus últimos anos com Allen foram difíceis, à medida que seus problemas com drogas e álcool, agravados por surtos de psicose, tomaram as rédeas. Aconselhados pela cantora Marianne Faithfull, Allen e Peter procuraram ajuda em um programa em 12 etapas. Lá, Allen compreendeu de que maneira havia inconscientemente encorajado a dependência de Peter em relação a ele. Eles até mesmo se separaram oficialmente por um tempo, e Peter continuou a ter suas namoradas. Mas Allen assegurava que seu velho companheiro sempre teria um teto sobre a cabeça.

Quando Allen deu seus últimos suspiros após a meia-noite de 5 de abril de 1997, Peter estava ao seu lado. “Adeus, querido”, disse, beijando a cabeça do poeta pouco antes do momento da morte, cumprindo o seu voto.

A última vez em que vi Peter foi logo depois disso, em um leilão de camisas, fotografias e outras propriedades pessoais na Sotheby de Nova York. As senhoras de cabelos azuis que anotavam os nomes na porta olharam desconfiadas para o estranho de barbas que alegava estar na lista de convidados. “Bem, quem é você”, uma delas finalmente perguntou. “Sou a sr.a Ginsberg!”, berrou Peter. Elas deixaram-no entrar.

E Allen também cumpriu o seu voto em relação a Peter. Dinheiro do Ginsberg Trust ajudou Peter a escapar da cidade e comprar uma casa modesta em St. Johnsbury, Vermont. Lá, Chuck e Judy Lief, estudantes sêniores do mestre budista de Allen, o Vidyadhara Chögyam Trungpa Rinpoche, cuidaram dele em seus últimos anos, com a ajuda de outros membros do sangha de Shambhala.

Peter morreu de câncer no pulmão na Vermont Respite House, em Williston, na manhã de domingo, 30 de maio de 2010, cercado por velhos amigos como a poeta Anne Waldman, cofundadora da Jack Kerouac School. Chuck escreveu-me logo após a morte de Peter:

“Apesar de depender cada vez mais de oxigênio, Peter foi um membro dedicado do pequeno centro de meditação de St. Johnsbury, e participante frequente das celebrações e eventos maiores do centro de meditação Karmê Chöling. Tinha um instrutor de meditação, e ansiava por ter uma cópia de cada novo livro de ensinamentos do Vidyadhara que era publicado. Gostava de receber cartas e telefonemas de velhos amigos. Embora não tenha escrito nos últimos anos, Peter notava tudo que acontecia ao seu redor, usando a mente de poeta que Allen notou ser tão naturalmente presente.”

Adeus, pequeno Peter, gentil Peter. Nunca vou esquecer quão dócil você foi.

Peter Orlovsky. Cherry Valley, 1979. Foto: Cliff Fyman

Steve Silberman escreve para as revistas Wired, Shambhala Sun e outras revistas norte-americanas.Visite o site de Steve: http://www.stevesilberman.com/.
Texto publicado por Dharma/Arte em acordo com o autor. Proibida a reprodução por qualquer meio sem autorização escrita.
Fotos reproduzidas por Dharma/Arte em acordo com Cliff Fyman. Proibida a reprodução por qualquer meio sem autorização escrita.
Dharma/Arte agradece a Steve Silberman e a Cliff Fyman a gentileza e a presteza com que permitiram a publicação deste texto.

Felicidade impossível: uma elegia para Peter Orlovsky | 2010 | d/a magazine | Comentário/Comments (1)
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