o espaço no meio:
o legado teatral de chögyam trungpa (2)
Lee Worley
Foto: Nina Maria Mudita
O espaço entre o público e os atores
Além de escrever e produzir algumas peças, Chögyam Trungpa criou uma série de posturas para o grupo Mudra. Estas fornecem um contexto no qual a “intensificação” e o “relaxamento” de forma e espaço são examinados, experimentados e crescentemente refinados. Venho ensinando esses exercícios como base de formação teatral há quase trinta anos. Na medida em que é uma prática em grupo, somente dessa maneira sou capaz de manter minha própria prática. Eles formam um precioso conjunto de ensinamentos no qual continuamente descubro verdades mais profundas sobre a forma e como ela se inter-relaciona com o espaço, ao mesmo tempo que a presença e a confiança em minha “atuação” se fortalecem. Ao longo dos anos, notei que meus alunos passaram a apreciar essas formas aparentemente monótonas, repetitivas e dolorosas. O espaço não é mais o conceito misterioso que era para os praticantes de Mudra em 1972. A intensidade não é mais algo que acontece às pessoas em outros lugares. Como uma espécie, gradualmente nos tornamos conscientes do significado do espaço como nossa base de apoio elementar, e também como a interconexão que nos une de maneira inflexível e inevitável.
Quando Chögyam Trungpa conheceu o teatro ocidental no final da década de 1960, viu pessoas aceitavelmente hábeis que, quando colocadas em situações de pressão ou “intensas”, tinham espasmos, se tornavam disfuncionais, agressivas ou catatônicas. Ele disse ao grupo Mudra que nos tornávamos “hesitantes [...] completamente incompetentes e perdidos, e que não sabíamos como lidar com nada” (encontro do grupo de Teatro Mudra, 18 dez. 1972). Submetidos à pressão da situação de uma apresentação, pessoas razoáveis repentinamente ficavam desatentas. Nós, acostumados ao teatro ocidental, poderíamos pensar que o que estamos vendo era “atuação”. Não sabíamos que poderia haver outra maneira, menos distorcida, de apresentar-nos. “Tempo e espaço”, Trungpa nos disse, “têm de ser um meio de apoio para que a atividade ocorra. Um sentido de generosidade e compaixão, por assim dizer, tem de existir no espaço como um intermediário entre a projeção e o projetor. E, quando essa ponte começa a se estender e a brecha começa a se fechar, a apresentação, ou, no que diz respeito a isso, qualquer obra de arte, não é mais um salto abrupto de um penhasco, indo de nenhum lugar para lugar algum. Ela se torna uma dança” (Chögyam Trungpa, introdução à conferência de teatro, 17 fev. 1973).
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