travas na roda
Desenhos de Jeff Wigman; texto de John Pappas
Três poderosas imagens em rotação: o galo, a serpente e o porco, representando a avidez, o ódio e a ignorância, respectivamente. Esses venenos sangram e mesclam-se uns nos outros. De um galo brotam escamas; asas surgem da serpente; ambos se chocam nas patas do porco. É difícil domar, e horrível de ver, a quimera que resulta desse encontro. O galo já está se fundindo à serpente?
O Buda apresentou uma cadeia causal de atividade desencadeada pela avidez, pelo ódio e pela ignorância, e que é responsável pelo ciclo infinito de sofrimento. Quando realmente compreendida, essa cadeia poderia ser rompida e o ciclo teria fim. Cada um desses elos, os nidanas, vincula-se causalmente ao próximo, e cada passo cria as bases para o passo seguinte na cadeia. Quer começemos no começo da cadeia, no meio ou no fim, o resultado é o mesmo, renascimento e sofrimento.
Uma árvore não surge na mata sem alguns fatores que a antecedem, que a trazem ao seu estado atual. A árvore precisou de água vinda do céu, de nutrientes da terra, da luz do sol para aquecê-la e de uma semente da qual brotasse. Todos esses fatores fizeram com que a árvore crescesse e a trouxeram ao seu estado atual. Cada um dos fatores que a precipitaram, por sua vez, não surgiram do nada. O solo está repleto de nutrientes provenientes de matéria orgânica em decomposição e de minerais liberados por rochas antigas. A luz do sol é filtrada pela atmosfera e resulta de reações químicas no interior do sol. A chuva ocorre devido a padrões climáticos que alteram as condições atmosféricas. Cada uma dessas coisas fez, em parte, com que a semente se soltasse de uma árvore. Tudo se deve a fatores causais que o precederam.
Os budistas estão mais interessados nas sementes do renascimento e em como romper com os eventos causais que levam à continuidade do sofrimento através de ciclos infinitos de nascimento e morte. Nosso objetivo é evitar que essas próprias sementes se formem, ou ao menos cortar a árvore do sofrimento. Mas, para empreender essas ações, o Buda ensinou que a chave para a liberação é, primeiro, compreender.
Cada um dos doze nidanas — ignorância, formação mental, consciência, nome e formação, os seis sentidos, contato, desejo, apego, vir-a-ser, nascimento e, enfim, velhice e morte — representa um elo na cadeia causal que leva ao renascimento e ao sofrimento. Representam também a esperança de que fazer cessar qualquer ponto na cadeia rompa o ciclo e conduza à liberação.

Com as chaves do carro na mão — Tateando pela escuridão em busca de um carro que nunca viu, a cega revira sua vida envolta em completa ignorância. Por não compreender a realidade e a formação do ego, a mulher deriva pelo oceano da confusão e da dor. Mesmo que a cega tenha sorte e esbarre no veículo que procura, o golpe a deixaria atordoada, e ela recomeçaria sua incômoda busca.
Um oleiro em sua roda — A formação de nossas habilidades e de nosso caráter é representada por este nidana na forma de um oleiro em sua roda. Moldando cuidadosamente superfícies e barreiras de barro com sua compreensão limitada, o oleiro separa o conhecido daquilo que não pode conhecer. Surpreendentemente resistentes, essas superfícies de barro são aquecidas no forno da ignorância e endurecem com o tempo e a experiência. O sopro enérgico da introspecção e da contemplação poderá despedaçar essas superfícies? O oleiro começa a ponderar por que teve o trabalho de criar essa vasilha.

Um macaco na gaiola — Nossos sentidos correm soltos na jaula de nossa consciência. Colhemos as informações dos sentidos e assim nos tornamos seus coletores. Olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e mente são selvagens e indômitos em um momento, e refinados no seguinte. O oleiro continua em sua roda? A vasilha tornou-se uma jaula que contém tanto o criador como sua criatura. Há alguém capaz de, diante da roda, criar a si próprio?
Deslizando pela superfície — Rótulos e formas agora corporificam a categorização de nossa experiência. Observando e coletando informações sensoriais, formamos nossa vasilha; agora plantamos com firmeza os pés na superfície de nossa realidade e a declaramos nossa. Nossa consciência surge dessa atitude mas produz apenas pequenas ondas, e a superfície permanece em grande parte intocada. Os passageiros parecem preocupados? Sabem qual a profundidade da água abaixo deles?

A casa com seis janelas — Os seis sentidos — visão, audição, olfato, tato, paladar e formações mentais — formam a fundação e a estrutura da casa que construímos. Cada um desses sentidos nos oferece a informação bruta que descreve o mundo e enfim aquilo que consideramos ser nossa consciência. A terminologia ocidental não inclui a formação mental; no entanto, a mente é um sentido integral que interage com os outros cinco sentidos e os incorpora. Como resultado, aquilo que antes era uma pequena vasilha de barro criada pelo oleiro se tornou uma fortaleza protegida. A separação entre nossos sentidos e os objetos dos sentidos diminui e torna-se mais díspare. No caso das formações mentais, confundimos nossos próprios processos mentais com a realidade? Os habitantes da fortaleza de fato experimentam seus sentidos, ou estão apenas espiando por entre as persianas de madeira que encobrem as janelas?
Tingindo a janela — As cores no quadro sobre a parede misturam-se umas às outras, assim como os corpos sob o lençol. Com a união dos sentidos e o objeto dos sentidos, nasce a experiência! A interação é fugidia e momentânea, contendo uma pequena semente de experiência que será o tempero de todas as interações futuras. As coisas são agora experimentadas e tingidas com sentido e significado. Sob camadas de cor e experiência, ao menos nos lembramos da tela em branco ou do lençol limpo?

Flecha no olho — Aguda, profunda e penetrante, para nós pode ser demais lidar com a experiência do contato. A memória e o significado associados ao contato conservam o sentido que unimos a ele. Cortante e veloz, a flecha é exata em sua aterrissagem. Quebre a haste e a ponta da seta ficará firmemente alojada. Cegos desde o início e impregnados de emoção, consideramos acurada a nossa memória?
Tomando leite na garrafa — Depois de nosso rápido encontro com o contato entre os sentidos e o mundo exterior, constantemente nos apegamos ao que é agradável e evitamos o desagradável. Isso leva às ações habituais. A sensação agradável inicial não está mais presente, e tomamos diretamente na garrafa a fim de garantir a reafirmação da memória da experiência. Motivados pela insegurança e pela falta de compreensão das verdades de nossa existência, ansiamos por um sentido espritual mas nunca nos libertamos dos grilhões do sofrimento.

Escalando a cerca — Buscamos satisfazer os desejos e damos passos tangíveis e determinados para alcançar e obter o que buscamos. Espiando por cima da cerca, nós nos enganamos e pensamos que estamos observando o Absoluto, mas ele pisca para nós e fecha as persianas. Não nos importamos e continuamos a comer maçãs. Seu suco está manchando nossa roupa. Mastigando lentamente, somos pegos pelo vício ao oscilar entre céu e inferno. Não nos damos conta de que nós próprios criamos essas distinções, engolimos. Tão arbitrárias como pontos em um mapa ou os traçados de fronteiras nacionais, as conceitualizações de céu e inferno ofuscam e distorcem.
Mostrar as cartas — Fomos completamente comprados. A narrativa está tomada de atividades não intencionais e estamos prontos para o nascimento do “eu” — de uma identidade única que consiste em decadentes ruínas de sentidos, memórias e pensamentos. Nós nos identificamos com os frutos de nosso coito sensorial e continuamos a consumir o mundo fenomenológico, nossas roupas da moda e nossos drinques.

Mesa de parto — Criamos, construímos e fortalecemos nossas vasilhas nos nidanas anteriores. Agora o ego floresceu com tal força que interage com o mundo diretamente. Aqui vemos o nascimento de um “eu” que grita e tem fome. Ao contrário de uma criança, no entanto, esse nascimento não é celebrado, pois representa a criação de mais ilusões.
Doença, velhice e morte — As coisas para as quais éramos cegos no começo, nós agora as carregamos conosco. Ao levantar o cadáver de nossa criança nas costas, vemos a morte do ego sendo substituída somente por uma outra. A constância de toda a nossa ignorância, anseios, sentimentos e sensações apenas cessa para renascer novamente. Por que continuamos a carregar o cadáver? O que deve estar pensando o cãozinho…?
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Jeff Wigman encontrou-se com os ensinamentos de Chögyam Trungpa em 1996 e desde então é um estudante do Sakyong Mipham Rinpoche. É artista e designer e reside no estado de Nova York com sua esposa. Pode ser contatado através de seu site.
John Pappas é um praticante zen relutante, oscilando entre o relativo e o absoluto nas Grandes Planícies do estado norte-americano da Dakota do Sul. Escritor em ascensão em periódicos budistas, bibliotecário e aspirante a fantasma faminto, John espalha o dharma em seu blog pessoal, o irreverente Sweep the Dust Push the Dirt, assim como no efêmero Elephant Journal.
Desenhos © 2010 Jeff Wigman. Todos os direitos reservados.
Texto © 2010 John Pappas. Todos os direitos reservados.
Desenhos e texto publicados por Dharma/Arte em acordo com os autores.
Trad. Carlos A. Inada
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