V i s õ e s d e s u s t e n t a b i l i d a d e
Fabiana Nardi
Foto: Fabiana Nardi/Masterson Photo
As discussões sobre sustentabilidade são frequentemente identificadas à temática “verde”, ou seja, à temática ecológica. Peter Senge, autor de A quinta disciplina, é um dos autores que vêm advertindo que sustentabilidade não é ecologia. Segundo Senge, apesar da importância e urgência da questão ambiental, visões de sustentabilidade deveriam incluir novas visões de futuro, ou seja, ser menos dominadas pela visão negativa de reagir e conservar algo em declínio e mais temperada por uma visão positiva, marcada pela ação e pelo sonho.
Nesse processo, a abordagem contemplativa (incluindo a consciência meditativa) pode ter um importante papel, indo além dos padrões de um uso “consciente” de recursos ou de um “consumo consciente”, que apenas enfatizam paradigmas correntes: a abordagem contemplativa e sua inteligência têm o potencial de transformar a negatividade da mentalidade de sobrevivência em uma inspiração positiva. A proposta de Dharma/Arte, simultaneamente às suas atividades na área artística, é incentivar o diálogo entre a criatividade artística, a sabedoria contemplativa e a inovação necessária em diversas áreas da sociedade contemporânea, como lideranças, inteligência coletiva e sustentabilidade. Discuta e participe!
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Terminei recentemente meu mestrado em liderança para sustentabilidade ambiental na Naropa University, em Boulder (Colorado, EUA), com uma dúvida: será que os líderes de nossas empresas estão realmente preocupados em implementar iniciativas sustentáveis que unam processos, cultura organizacional, e atinjam seus empregados de maneira pessoal e profissional? Ou mais uma vez buscam soluções simples e rápidas que possam ser apresentadas ao mercado e que apenas os ajudem a conquistar mais um selo de qualidade para sua coleção?
A palavra da vez nos Estados Unidos é clean tech, tecnologia limpa. As empresas do futuro deverão estar ligadas ao movimento clean tech se quiserem conquistar sua chancela verde. Essa qualificação é dada a todas as novas tecnologias limpas que buscam o mínimo de impacto negativo na natureza e na sociedade. O foco das conversas e dos artigos na imprensa são os novos processos e as tecnologias que ajudem as empresas a ser mais verdes. Para que se tenha uma ideia de como esse tema está em alta no mercado norte-americano, uma recente pesquisa feita com os consumidores questionou quais seriam as causas com as quais eles, pessoalmente, se preocupavam mais. A resposta quase unânime (91% dos entrevistados) foi proteção ao ambiente. Essa resposta, por incrível que pareça, esteve à frente de um tema que causa polêmica desde meados de 2009 nos Estados Unidos, a melhoria da qualidade do sistema de saúde. Inúmeros cartazes e selos anunciam: “Compre localmente e diminua o desperdício com transporte e armazenagem” ou “Produto do Colorado”, atestando como algumas grandes cadeias americanas, como a Whole Foods, estão interessadas em pegar a onda verde e trazê-la para as discussões estratégicas e de processos de tomada de decisão em suas organizações.
Mas não falta algo nessas discussões? Barrett Brown, consultor de sustentabilidade da Dutch Sustainable Trade Initiative, de Amsterdam, desenvolveu uma interessante pesquisa com os livros de sustentabilidade mais vendidos no ano de 2006. A questão levantada por sua pesquisa era: qual a principal perspectiva adotada pelos livros mais vendidos ao analisar problemas e sugerir ações para uma sociedade mais sustentável? De acordo com a pesquisa, 92% da literatura tem como foco de sua atenção, discussão, diagnóstico e prescrição de ações assuntos ligados às tecnologias e aos processos verdes. Mas podemos resumir todos os problemas relacionados à sustentabilidade apenas à descoberta e implementação de novas tecnologias e processos de gestão? Ao final de sua pesquisa, Brown deixa duas questões para discussões futuras: em que momento os indivíduos, com seus valores, emoções, motivações, relações e ações, serão incorporados às análises de sustentabilidade? E quais as consequências para as empresas quando seus líderes utilizam basicamente tais livros como fonte de inspiração e tomada de decisão nessa área?
É necessário romper com um grande paradigma empresarial. A maioria das empresas ainda é tratada e gerenciada com base no princípio mecanicista que as vê como um conjunto de engrenagens ligadas umas as outras. Pessoas, assim como matérias-primas, são peças que devem estar no local certo para que a engrenagem não se desagregue. Contudo, com o desenvolvimento dos estudos de pensamento sistêmico, da teoria do caos e até mesmo da fisíca quântica e de cosmologia, cada vez mais se verifica que empresas são, na verdade, um grande e complexo sistema vivo, possuindo todas as suas características: uma empresa tem a capacidade de adaptar-se ao seu ambiente para sobreviver. Apenas seres vivos também têm tal capacidade.
E, se empresas são consideradas como sistemas vivos, elas também possuem perspectivas interiores criadas por seus empregados e relacionadas a emoções, valores, motivações, cultura e maneiras de relacionar-se uns com os outros, as quais muitas vezes são ignoradas em reuniões estratégicas sobre sustentabilidade. Todavia, são exatamente essas perspectivas interiores que geram as intenções por trás das ações. Não existe execução sem intenção.
Mudanças só se tornam autênticas quando novos valores são incorporados pelas pessoas. Para muitas empresas a motivação é apenas a pressão de leis ambientais, consumidores, concorrência e regulamentos; uma vez que estes desaparecem, tudo pode retornar a como era antes.
Líderes que iniciam seu caminho em direção a ações sustentáveis desempenham um importante papel como agentes de mudanças. E mudança implica a contemplação de valores mais inclusivos, que incorporem não só suas perspectivas pessoais e as de sua empresa, mas também da sociedade e do planeta. É sair de uma visão egocêntrica para uma visão mais “mundocêntrica”, se assim podemos chamá-la.
Uma importante atitude como agente de mudanças é questionar por que as pessoas fazem as coisas da maneira como fazem e o que essas pessoas estão fazendo. Tendo uma ideia clara dos “porquês” e “quês”, torna-se mais fácil entender a relação entre esses fatores e quais seriam seus pontos de alavancagem. Isso facilita os processos de mudanças de um cenário não sustentável para um mais equilibrado, no que diz respeito ao uso de nosso planeta, por exemplo.
Foto: Fabiana Nardi/Masterson Photo
A evolução da consciência humana foi o tema que me estimulou a dar início ao meu mestrado em sustentabilidade. Foi nesse contexto que conheci o livro Uma teoria de tudo, do filósofo norte-americano Ken Wilber, considerado por seus admiradores como o “Einstein da Consciência” do século XXI. Ken Wilber desenvolveu um modelo conhecido como Teoria Integral, que pode oferecer aos líderes uma metodologia para a compreensão da correlação entre os porquês e os quês de uma situação. Pessoalmente, considero tal modelo uma valiosa ferramenta de gestão, que me ajuda a entender a relação entre o todo e as partes de situações cuja sustentabilidade organizacional eu esteja analisando.
A aplicação da Teoria Integral nos modelos de gestão para sustentabilidade é chamada por Barrett Brown, autor da pesquisa que já mencionei, entre outros, de “sustentabilidade integral”. Esse modelo busca reduzir e integrar todos os fatores que interferem na execução de uma ação em quatro perspectivas, ou lentes pelas quais olhamos o mundo e o analisamos. Diferentes perspectivas nos mostram diferentes formas de olhar o mundo e interagir com ele. O modelo integral diz que é possível enxergar o mundo através: de perspectivas individuais, interna e externa; e de perspectivas coletivas, interna e externa. Além de analisar as perspectivas existentes num evento, o modelo também questiona linhas de desenvolvimento dos atores envolvidos no evento, seus estados de consciência, seus tipos psicológicos e as etapas de desenvolvimento de sua consciência. Analisando esses fatores, seria possível não só ter uma visão ampliada e inclusiva dos fatores que geraram tal evento, como também buscar soluções que considerem de maneira mais realista o impacto de cada um deles nas soluções encontradas. É uma excelente maneira de manter a relação entre o todo de um problema com suas partes, e vice-versa.
De acordo com a Teoria Integral, existem duas fontes principais que geram as intenções por trás de nossas ações. A perspectiva interior individual está relacionada a cada um de nós como indivíduos e é traduzida pelo pronome “eu”. O sujeito dessa perspectiva de ver o mundo é “eu”. Portanto, são todos os fatores relacionados com o espaço interno de um indivíduo, como emoções, sentimentos, motivações, valores pessoais etc. Também podemos chamar essa perspectiva de experiências pessoais. Exemplos de frases que indicam essa perspectiva: “Sinto-me frustrado com este projeto de sustentabilidade”, “Estou gostando de liderar essa iniciativa sustentável”, “Estou entusiasmado com as oportunidades de minimizar o uso de embalagens”, “Valorizo a reciclagem em nosso departamento” etc.
A perspectiva interior coletiva relaciona-se a cada um de nós como indivíduos que fazem parte de um grupo maior, seja ele o departamento em que trabalhamos, uma empresa, família, sociedade ou o planeta. Ela é traduzida pelo pronome “nós”. O sujeito dessa perspectiva existe quando duas ou mais pessoas interagem, criando o universo do “nós”. Assim, são todos os fatores relacionados com o interior de um grupo, tais como cultura e valores do grupo, códigos sociais, qualidade dos relacionamentos etc. Essa perspectiva também é chamada de cultura de um grupo. Exemplos de frases que demonstram essa perspectiva em ação: “Gostamos de participar de ações de sustentabilidade”, “Valorizamos o trabalho em conjunto com a sociedade”, ”Não queremos ficar de fora das discussões sobre sustentabilidade” etc.
Uma vez que se transformam em ações, nossas intenções criam tudo o que fazemos. A execução de nossas intenções é visível e pertence à dimensão exterior do conjunto das quatro perspectivas integrais. Da mesma maneira como as intenções, as execuções também podem ser divididas em individuais e coletivas. A perspectiva exterior individual relaciona-se a todas as ações realizadas por uma pessoa. Nela se inclui tudo o que se relaciona com nosso corpo, que é o meio pelo qual canalizamos nossas ações. São os comportamentos individuais. Exemplos de frases que demonstram essa perspectiva: “Estou escrevendo um relatório com as ações de sustentabilidade da minha área”, “Estou liderando a equipe de sustentabilidade de minha empresa”, “Devido ao aumento do nível de poluição do ar na fábrica, venho tendo dor de cabeça” etc.
A perspectiva exterior coletiva diz respeito ao conjunto de ações que criam novos sistemas e tecnologias. Essa perspectiva é a única sem elementos humanos diretos, mas apresenta o resultado de nossas ações traduzidas em sistemas políticos, econômicos, financeiros, tecnologias em geral, sistemas organizacionais e de gestão. Podemos dizer que se refere ao mundo material em geral. Também chamamos essa perspectiva de sistemas e ferramentas.
Foto: Fabiana Nardi/Masterson Photo
De maneira geral, podemos dizer que essas quatro perspectivas resumem os fatores que influenciam e estão presentes em um dado evento. Dizemos que elas são cocriadas a partir do momento que um evento existe e, portanto, não podem ser separadas umas das outras. A implicação direta desse fato é que a análise de um evento não pode ser reduzida a apenas uma das perspectivas. Quando isso acontece, temos uma leitura parcial da realidade. Consequentemente, nenhuma dessas perspectivas é mais importante do que as outras, e cada uma merece e demanda igual consideração em qualquer tentativa de iniciar uma análise de sustentabilidade.
Líderes preocupados com a sustentabilidade deveriam primeiramente ter uma consciência clara da existência dessas perspectivas, e questionar-se em qual perspectiva eles têm maior tendência de concentrar-se. Com isso, podem diminuir a possibilidade de uma análise parcial de uma situação, que tome a parte como o todo.
O modelo de sustentabilidade integral pode ser utilizado como ferramenta de diagnóstico (por exemplo: em qual perspectiva temos maiores problemas?), de organização da situação atual (o que está acontecendo em relação à sustentabilidade em cada perspectiva?) e de prescrição de ações (que ações devemos empreender em cada perspectiva?).
Se uma empresa solicita que se reduza o consumo de energia em seus departamentos, um líder sem uma abordagem abrangente pode acabar focando naquilo que considera mais lógico e visível, que seria, nesse modelo integral, a perspectiva de sistemas e ferramentas. Dessa maneira, suas questões seriam: “Quanto estamos gastando com energia?”, “Quanto de nossa energia é oriunda de recursos renováveis?”, “Quais são as políticas da empresa em relação a esse tema?”. Contudo, como vimos, há no modelo integral pelo menos três outras perspectivas que podem afetar o problema em questão e que esse líder não está considerando. Além das perguntas anteriores, relacionadas a sistemas e ferramentas, o modelo integral incorporaria outras questões, ligadas a cada uma das outras três perspectivas: “Quais são as opiniões pessoais de cada membro de minha equipe em relação ao tema consumo de energia do nosso departamento?” (perspectiva pessoal), “Como a cultura de nossa empresa tem valorizado assuntos ligados ao consumo de energia nos últimos anos? Isso tem mudado?” (cultura organizacional), “Como os líderes do nosso departamento estão usando energia e para quê?” (comportamentos individuais), “Quais são os processos em nosso departamento que mais consomem energia e por quê?” (sistemas e ferramentas).
Concluindo, segundo o modelo integral, uma iniciativa de sustentabilidade que não considere as quatro perspectivas será apenas parcialmente efetiva, e os resultados podem não durar por muito tempo. Líderes que decidam iniciar em suas empresas movimentos abrangentes de sustentabilidade serão aqueles que buscarem expandir constantemente suas perspectivas e maneiras de enfrentar os desafios de sustentabilidade, incorporando em suas discussões e tomadas de decisão, segundo o modelo integral, as perspectivas de experiências pessoais, cultura organizacional, comportamentos individuais e, finalmente, sistemas e processos de gestão. Tais líderes servirão como ligação entre intenção e execução , o pessoal e o coletivo, o interno e o externo. Existem muitas maneiras de iniciar a implementação da sustentabilidade integral nas empresas, mas isso é assunto para um próximo artigo.
Gostou do tema e gostaria de conversar mais sobre ele? Por favor, comente e participe.
Texto publicado por Dharma/Arte em acordo com a autora. © 2010 Fabiana Nardi. Todos os direitos reservados. A reprodução total ou parcial, sem autorização escrita da autora, é estritamente proibida.
Fotos: © 2010 Fabiana Nardi/Masterson Photo (http://www.mastersonphoto.com/)







2 comentários em “Visões de sustentabilidade”
April 21st, 2010 at 00:39
Fabiana
Abriu uma nova visão para minha perspectiva sobre a Arte e a Sustentabilidade !!
As fotos atingem a profundidade do meu Ser.
Maravilha,
Otto
April 22nd, 2010 at 20:46
Muito obrigada, Otto, por seu gracioso comentário.
Fico muito feliz que uma nova visão foi despertada em você após a leitura do texto. Fico apenas curiosa em saber que nova visão seria essa…
Todas essas fotos foram tiradas perto de umas montanhas inspiradoras que ficam próximas a Denver, Colorado. Também tenho um carinho muito especial por elas.
Abraço,
Fabiana Nardi
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