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Chögyam Trungpa

Foto: Thea Boldt

Foto: © Thea D. Boldt

Abordar o simbolismo com base em seu desejo de constantemente aprender mais e mais é questionável, pois nisso tem lugar muita agressão. Não no sentido de vocês terem raiva, ou de perderem a paciência, mas agressão como um obstáculo fundamental. Todas as coleções em que vêm trabalhando, e nas quais continuam a trabalhar, são questionáveis. Quando estão realmente com raiva, seus olhos ficam vermelhos e vocês não conseguem ver propriamente; começam a gaguejar e não conseguem falar propriamente. Tornam-se um vegetal insignificante. Esse tipo de agressão é o maior obstáculo à percepção, a que percebam o simbolismo. Se vocês realmente veem a cidade de Boulder, se realmente veem as montanhas de Boulder ou os céus de Boulder, não há agressão. No entanto, tenho certas dúvidas sobre se vocês realmente os viram. Essa observação não é condescendência, não estou rebaixando sua honrável existência. É um lembrete. Talvez vocês não tenham reunido nada do que lhes permita experimentar o que deveriam experimentar. Isso é bem possível, pois a agressão é muito poderosa. Quando projetam em direção a um objeto, vocês querem capturá-lo, como uma aranha captura uma mosca, e suga seu sangue. Vocês podem se sentir renovados, mas isso é um grande problema. A definição de dharma/arte, assim como sua iconografia, é a experiência pessoal da não-agressão.

Há mais na agressão do que perder a paciência ou bater no marido ou na esposa ou no filho, ou ter uma briga com seus vizinhos. Tudo isso é simplesmente um subproduto da agressão. A verdadeira agressão tem lugar em nossa mente, em nosso coração. Faz nosso sangue ferver. Pode ofender-nos e tornar-nos tão completamente estúpidos que não podemos sequer ver.

Nesse ponto, muito estranhamente, vocês atingem um tipo de pseudoexperiência de ausência de ego. Vocês se tornam unos com a agressão. Quando realmente perdem a calma, vocês não existem; apenas sua agressão existe. Vocês perdem seu ponto de referência. É isso o que vocês mais temem. Vocês estão tão indignados que veem tudo vermelho, seu coração bate mais rápido, e começam a ouvir sons nesta baixa frequência. E acabam como apenas um punhado de pulgas de cor vermelha, uma pulga que gostaria de pular mas não consegue, uma insignificante pulga sedenta de sangue. Vocês podem pensar que são grandes, mas são apenas uma pulga.

A agressão cria muitos obstáculos à experiência do simbolismo. Quando falamos de agressão, as pessoas ficam com raiva. Não querem ouvir nada; não querem nada que tenha relação com isso. “Diga-me algo sobre a paz, algo bom. Você deveria acalmar minha mente.” Receio que a verdade sobre esse tema seja que não é assim que funciona. Temos de explorar o que temos, e como a surdez e a cegueira provêm de nossa agressão pessoal. Quando somos agressivos, queremos muito encontrar algo. Gostaríamos de possuir a verdade, mastigá-la, engoli-la e digeri-la. Esse é um grande problema. Buscamos a verdade como faríamos com um pedaço de chocolate. Mas ainda temos raiva e sempre queremos mais. Então procuramos o próximo pedaço de chocolate. Continuamos assim e nunca percebemos quantas viagens infligimos a nós mesmos. Isso nos faz surdos, mudos e cegos. Nossa percepção do simbolismo é completamente bloqueada. Esse é um espaço aterrorizante, muito aterrorizante.

A agressão atua como um enorme véu que nos impede de ver a precisão do funcionamento do simbolismo absoluto, assim como do simbolismo relativo. E o único remédio possível, de acordo com a abordagem tradicional, é render-se. Essa parece ser a única maneira de superar a agressão. Render-se não significa reduzir-se a uma criança que pula no colo de alguém, procurando por seus pais. Render-se é simplesmente querer dar, abrir mão de todos os tipos de viagem pessoal, viagens econômicas e viagens espirituais envolvidos na resistência. A resistência, ou agressão, apenas nos faz mais cegos. Assim, desistir, abrir-se, render-se, é muito importante, porque finalmente vocês começam a abrir mão de sua agressão. Vocês começam a dizer: “Dá o fora!”.

Vocês sentem que gostariam de dar, abrir-se, dar um salto. Dependendo do nível de sua compreensão, isso pode até mesmo significar entregar-se a sua própira agressão, permitir que essa agressão se apodere de vocês. Vocês pouco se importam. Vocês têm alguma fé e confiança na verdade fundamental proveniente da linhagem, que de fato fala a verdade da não-agressão. É um grande alívio quando vocês começam a dar, dar, dar. Não me refiro à ideia convencionar de dar, quando você tem dez dólares na conta bancária, dá cinco dólares e fica com os outros cinco para a sua conservação. Dar cinquenta por cento de sua agressão e reservar os outros cinquenta para manter a sua viagem não é suficiente. Vocês têm de abrir mão de tudo. E, cada vez que dão, sua visão começar a tornar-se clara, e há um filtro a menos sobre suas pupilas; sua audição começar a ficar clara, e há menos cerume em seu canal auditivo. Então vocês começam a ouvir e a ver muito melhor, à medida que abrem mão mais e mais dessa tensão, dessa contenção, desse ressentimento. Vocês não estão particularmente fazendo nenhum favor a ninguém, e não há ninguém para dizer “obrigado”, como um pároco do interior que lhes agradecesse o dinheiro que deram à igreja, o que poderia soar falso. Vocês não dão para ninguém; vocês apenas dão, sem esperar nada em contrapartida. Vocês apenas dão, dão, dão, abrem mão. Cada vez que vocês dão, uma maior clareza tem lugar, e vocês estão mais bem preparados para ver o real significado do simbolismo. A dupla realidade do simbolismo relativo e absoluto pode ser vista muito claramente.

Dar e abrir-se não é algo particularmente doloroso, quando vocês começam a fazer isso. No entanto, a ideia de dar e abrir-se é muito dolorosa. Quando alguém pede que vocês deem, deem um salto, a sensação é horrível. Não querem fazer isso, embora sejam um tanto tentados pela ideia. “Talvez eu faça alguma descoberta, ou talvez eu perca tudo.” Vocês podem continuar com essa mente curiosa e dar, abrir-se mais, abrir-se completamente! Cedo ou tarde vocês farão isso, então, quanto antes, melhor. Espero que isso não seja muito complicado. Fundamentalmente a única coisa que estamos discutindo aqui é dar. É bastante simples: dar e ausência de agressão.

Quando damos, quando abrimos os olhos e os ouvidos e tudo foi completamente purificado, quando vemos completamente através de tudo, o resultado final é uma repentina experiência de precisão. É tão precisa e clara que é como ter novos óculos ou um novo aparelho para surdez. O todo torna-se tão preciso e tão direto que é doloroso. Vocês querem voltar para o antigo sistema confuso: “Prefiro ser surdo a escutar isso. Prefiro ser cego a ver aquilo”. Em certo sentido, isso é como o que toda a geração mais velha está dizendo, porque eles não querem ver seus filhos crescendo à sua própria maneira. Esse é um problema para muitos pais. Então terminamos em uma situação muito complicada. Estamos vendo tanto que não podemos lidar com isso — as coisas são tão precisas, tão diretas, e tão verdadeiras. “Como podemos nos proteger da verdade? Vamos dar meia-volta e rejeitar tudo, vamos mentir um pouco. Vamos cobrir a cabeça com uma manta e fingir que nada aconteceu e voltar para os velhos tempos passados, fantásticos, sujos, neuróticos, suculentos. Preferimos isso.” É bem possível que queiramos voltar e nos degradar. Se somos forçados a ver demais, gostaríamos de reduzir-nos a crianças, retornar ao útero materno e tornar-nos embriões, ou talvez um esperma, e então simplesmente desaparecer. Mas podemos fazer melhor do que isso.

Vamos enfrentar os fatos da realidade e sua precisão, que é tão irritante e poderosa. Quando começarmos a experimentar seu funcionamento e sua textura, quando realmente a percebermos, ela não será mais problemática. A razão pela qual ela poderia se tornar problemática é não sermos curiosos o suficiente para perceber o simbolismo ou os signos que se mostram ou ocorrem para nós. Mas agora podemos experimentar o simbolismo precisa e diretamente. Tendo dado o salto, tendo abandonado o chão que nos é familiar, vocês são como uma criança nua e sem preconceitos. Podem experimentar o simbolismo neste exato momento. Podem fazer isso. Vocês são claros, precisos e diretos. E essa precisão torna-se muito poderosa e importante.

Vamos não reclamar do passado, é um grande desperdício de energia. Vocês poderiam fazer muitas coisas pela humanidade se pudessem levantar-se e ser precisos. Vamos enfrentar o mundo sem óculos de sol. Tirem os óculos e percebam a luz. Isso é muito necessário. Vocês podem fazer muito, não apenas por si mesmos mas também pelos outros. Podem contribuir muito, ajudando e servindo as pessoas que sofrem, que estão enredadas em todos os tipos de problema. Vocês ainda não estão mortos, e não podem fingir que estão mortos. Às vezes vocês gostariam de juntar-se ao mundo dos mortos para que ninguém os importunasse, mas não é simples assim. Há vida após a morte. As coisas não são tão simples como vocês pensam. Vocês não podem apenas agir por impulso. Têm de dar mais.

Assim, por favor, levem em consideração este nosso mundo mútuo. Nós criamos este mundo mutuamente. Talvez ele não seja tão bom, não seja tão belo, mas tampouco é tão ruim — é um mundo normal. Vocês podem prosseguir neste mundo, e quando começarem a se relacionar com o mundo, poderão apreciar a ideia de simbolismo. A agressão e a paranoia, ser incapaz de saltar, são obstáculos ao simbolismo. Mas, quando paramos de rejeitar o mundo, o mundo começa a precipitar-se sobre nós. O simbolismo impõe-se sobre nós. Compreensões e percepções de todos os tipos de realidade começam a tomar forma. Há simbolismo à direita e à esquerda, à frente e atrás.

Foto: Thea Boldt

Foto: © Thea D. Boldt


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© Thea Boldt

Capítulo do livro Dharma/arte: a percepção verdadeira, de Chögyam Trungpa, cuja edição brasileira será lançada por Dharma/Arte em 2010. Edição original © 1996 by Diana J. Mukpo. Título original: Dharma art. Segunda edição norte-americana © 2008 by Diana J. Mukpo. Título original: True perception: the path of dharma art. Publicado originalmente por Shambhala Publications. Para mais informações sobre o livro, entre em contato conosco. Trad. Carlos A. Inada.

Fotos: © Thea Boldt. Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução por qualquer meio sem autorização escrita.

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