O   p r i n c í p i o   d o   d r a l a  (2):
o   l u x o   d e   e x p e r i m e n t a r   a   r e a l i d a d e

Bill Scheffel

Foto: Bill Scheffel
Foto: Bill Scheffel

Leia a primeira parte deste texto em http://blog.dharma.art.br/2009/11/o-principio-do-drala-1/.

Um programa de estudos
(continuação)

Descubra “o luxo de experimentar a realidade”

“O luxo de experimentar a realidade” é outra intrigante frase que Chögyam Trungpa usava e que expressa o coração do princípio do drala. Em nosso mundo moderno de tecnologia e consumismo, vivemos tremenda e desnecessariamente isolados dos elementos; como Trungpa ensinava, “somos apresentados a inúmeras invenções [...] dez mil tipos de luvas e cem mil tipos de sapatos e milhões de máscaras para repelir animais no mundo real [...] se sentimos o cheiro de uma vaca, já temos um aerossol”.

Chögyam Trungpa aconselhava seus alunos sobre a vida que imaginava na Nova Escócia, no Canadá, que deveria ter uma grande ligação com a terra.

Estamos falando de uma situação de cultivo, em certo sentido: como vamos experimentar a terra da maneira adequada, a terra verdadeira, a terra onde crescem as colheitas e a terra na qual os animais são criados. É muito, muito importante para nós que pela manhã, logo que acordamos, o primeiro incenso que sentimos seja feito de esterco de vaca ou esterco de cavalo, ou tenha o cheiro das plantas… Temos de apoiar e experimentar como a terra fala, em vez de simplesmente sentir o cheiro do bacon que nosso vizinho prepara assim que acordamos… temos de trabalhar sobre a terra, de maneira literal e adequada.

A visão de Chögyam Trungpa não era, é claro, a da “reeducação” imposta pela Revolução Cultural de Mao, e sim um chamado à devoção e ao sacrifício pelo espírito de sanidade, uma alternativa para o futuro sombrio que a  humanidade enfrentará se os excessos de nossa época não forem revistos. Muito simplesmente, quando vivemos com consciência dos elementos, vivemos luxuosamente. Por sua vez, quase tudo que chamamos de luxo é um excesso, uma distração, uma prisão. A experiência da chuva é um dos grandes luxos da vida, fonte de vida que cai do céu! Experimentar a realidade da chuva não significa sair sem guarda-chuva ou sair sem capa se estiver fazendo frio, não é abrir mão dos confortos comuns. No entanto, o luxo do mundo do “sol poente” da cultura de massas moderna é apenas consumismo sem fim, baseado no apetite por confortos e entretenimentos cada vez maiores e irrefletidos.

No trecho taoísta a seguir, não é necessário compreender suas implicações esotéricas para ser persuadido por sua devastadora conclusão:

. . .

A degradação do Tao ocorre quando abertura se torna espírito, espírito se torna energia e energia se torna forma. Quando nasce a forma, tudo se degrada. O funcionamento do Tao ocorre quando forma se torna energia, energia se torna espírito e espírito se torna abertura. Quando a abertura é clara, tudo flui livremente.

Assim os sábios antigos investigaram o início do que flui livremente e da degradação, encontraram a fonte da evolução, esqueceram a forma e cultivaram a energia, esqueceram a energia e cultivaram o espírito, e esqueceram o espírito e cultivaram a abertura.

Quando abertura se torna espírito, espírito se torna energia, energia se torna forma e forma se torna vitalidade, então vitalidade se torna atenção. Atenção se torna gestos sociais, e gestos sociais se tornam elevação e modéstia. Elevação e modéstia se tornam posição elevada e baixa, e posição elevada e baixa se tornam discriminação.

Discriminação se torna status oficial, status se torna carros. Carros se tornam mansões, mansões se tornam palácios. Palácios se tornam salões de banquetes, salões de banquetes se tornam extravagância. Extravagância se torna cobiça, cobiça se torna fraude. Fraude se torna punição, punição se torna rebelião. Rebelião se torna armas, armas se tornam conflitos e pilhagens, conflitos e pilhagem se tornam derrota e destruição. — De As irmãs imortais: ensinamentos secretos de mulheres taoístas [The Immortal Sisters: Secret Teachings of Taoist Women], tradução e edição de Thomas Cleary. Essa seção foi escrita no século X por Tan Jingsheng. É chamada de “Escritos transformacionais”, e resume a visão taoísta da evolução e da involução tanto de indivíduos como de processos coletivos.

Invoque a surpresa

O trecho a seguir faz parte de um texto que apresentei certa vez na Universidade Naropa no Ano-Novo tibetano:

A palavra que escolhi é: ATÔNITO. Essa é uma linda palavra. Vem do latim extonare, que significa “trovejar, retumbar”. Significa ser atingido por um maravilhamento repentino, ou mesmo por um medo repentino. John Lennon dizia: “Porque o mundo é redondo ele me deixa virado” [“Because the world is round it turns me on”]. Essa é a ideia. Desde que pensei nessa palavra uma semana atrás — quase imediatamente após ser convidado para dar esta palestra —, realmente venho notando quão surpreendente é o mundo, como ele nos deixa atônitos. Cada percepção que chega até nós. O rosto de uma pessoa nos deixa atônitos. A maneira como meu cachorro tenta sorrir para mim pela manhã, mostrando seus dentes, me deixa atônito. A broca do dentista deixa-me atônito.

O Sol do Grande Leste é um termo da tradição de Shambhala que significa que o mundo está sempre apresentando a si mesmo para nós pela primeira vez. Chögyam Trungpa costumava começar suas palestras dizendo: “Bom dia”, porque o sol nasce no leste. O leste é onde as coisas são sempre novas. Penso que ele via seus alunos dessa maneira, porque quando ele olhava para nós ele sempre parecia atônito (ou mesmo horrorizado!). Algumas coisas são tão surpreendentes que parecem inoportunas, gratuitas ou quase absurdas. Uma flor!

Momentos em que nos percebemos atônitos podem transformar a depressão e oferecer-nos uma visão verdadeira. Há um poema do poeta grego Odysseas Elytis em que o cheiro de um ramo de arbustos transforma sua mente:

. . .

Um dia, quando me sentia abandonado por tudo e uma grande tristeza invadiu lentamente minha alma, andando através dos campos sem salvação, puxei o ramo de um arbusto desconhecido. Quebrei-o e trouxe-o até meus lábios. Compreendi imediatamente que o homem é inocente. Li isso na verdade acerba daquele odor de maneira tão vívida, tomei sua estrada com passo ligeiro e coração missionário. Até que minha consciência mais profunda foi a de que todas as religiões mentem.

Sim, o Paraíso não é uma nostalgia. Nem, muito menos, uma recompensa. É um direito.

Foto: Bill Scheffel
Foto: Bill Scheffel

Assuma o seu lugar

A expressão ou o propósito derradeiros do princípio do drala é que cada um assuma responsabilidade genuína sobre sua própria vida. Embora exija sacrifício, isso não é um fardo, e sim uma alegria. Tornar-se responsável significa assumir o seu lugar, mas esse lugar — ou trono — é encontrado nos aposentos do coração de cada um. Bem ao contrário do que nos ensinam na escola, onde muitas vezes “lentamente nos rebaixam a desacreditar em nós mesmos” (Elytis, Eros, Eros, Eros, p. 105), responsabilidade é a realização de nosso desejo verdadeiro e fundamental, aquilo em que irredutivelmente acreditamos (mesmo que o tenhamos há muito esquecido).

Dois termos da tradição de Shambhala são úteis para compreender essa responsabilidade. O primeiro é o princípio do sakyong. Quando meu filho tinha sete anos, mostrei a ele a fotografia de uma floresta desbastada e ele irrompeu em lágrimas. Começou a chorar imediatamente, inconsolável e de maneira aparentemente desproporcional. O princípio do sakyong tomou conta dele, ou dele emergiu. De seu coração. Sakyong significa “protetor da terra”, um termo para o mais elevado lugar a que poderíamos aspirar, um lugar devotado a proteger a própria terra e, é claro, todos os seres que aqui vivem. A visão da floresta destruída — uma visão de uma in-sustentabilidade grotesca — evocou em meu filho uma resposta arquetípica do tipo mais profundo.

As lágrimas de meu filho demonstraram não apenas tristeza, mas também um tipo de enorme energia potencial — tanta energia que nunca me esqueci daquele momento! Temos de usar a energia desperta do coração espontâneo para ter a coragem de empreender a jornada para assumir nosso lugar mais profundamente humano como protetores da terra, sakyong. Aparentemente, somente esse tipo de despertar coletivo salvará nosso planeta das degradações contínuas e da possibilidade do colapso catastrófico.

A energia espontânea que às vezes sentimos (talvez somente uma vez na vida), em ou de nosso coração, é algo mais do que os componentes de nossa personalidade ou o tipo de pessoa que estamos tentando ser. Essa energia está relacionada ao segundo termo pertinente da tradição de Shambhala, o princípio do rigden. Poderíamos dizer que, embora não esteja em “outro” lugar, essa energia primordial origina-se, no entanto, de um tipo de espaço absoluto e não condicionado (que todas as tradições espirituais tentam evocar, compreender, ou ao menos a ele referir-se). Na tradição de Shambhala, ele não é citado ou compreendido como Deus, mas como “os Rigdens”, a forma mais elevada de inteligência ou ser não dual. Os Rigdens não são exatamente separados de nós, no entanto, podemos dizer — e experimentar! — que eles querem ajudar-nos.

Rigden significa “o que possui herança familiar”. Nossa herança passa por nossa mãe e nosso pai, pelos ancestrais que nos precederam, e tem origem na aurora da humanidade. Mas mesmo essa é uma designação arbitrária, porque nossa herança genética retrocede não apenas até os macacos, mas também às criaturas originais dos oceanos da terra, às células simples, ao carbono, à poeira cósmica. É impossível não possuir essa herança, mas nossa mente desenvolveu intermináveis ideias e condicionamentos que, afinal, faz com que nos sintamos isolados e alienados de qualquer herança. A existência, na forma dos Rigdens, e em toda célula viva, tem um compromisso de ajudar-nos a reunir-nos com nossa verdadeira herança familiar. Os dralas e os Rigdens mais elevados e absolutos.

Exatamente como os Rigdens nos ajudarão? Há um processo simples que temos de empreender, e ao fazer isso a ajuda chega até nós, inseparável do processo e talvez, por um longo tempo, não notada. Há passos para o processo, embora não necessariamente nesta ordem:

1. Temos de reconhecer nossa responsa-habilidade (para separar a palavra em seus componentes óbvios). Cada um de nós tem uma habilidade única de responder à nossa experiência de vida e, assim, afetar o mundo ao nosso redor. Nem todos são iguais, precisamente porque não existe uma “habilidade” única pela qual todos possamos ser medidos. Ao golpear uma bola de tênis, alguns têm mais habilidade que outros, mas essa é apenas uma entre infinitas habilidades possíveis. Assim como não somos todos iguais, nenhum de nós é particularmente especial, somos apenas únicos. Se cada floco de neve que cai é único, como cada ser humano (ou cão, gato, árvore) poderia não ser?

O grande mestre zen Dōgen dizia: “Todos têm todos os meios de que precisam para a sua vida”. Em meio à injustiça, deformações, fome, guerra e pobreza, é difícil acreditar que cada um de nós tem os meios de que precisa. Os meios dos quais Dōgen falava eram aqueles necessários para despertar, e o despertar nunca pode ocorrer a partir de outra matéria senão aquela que temos, por mais horrível que seja. Reconhecer a matéria de nossa responsa-habilidade é um processo de toda uma vida, que com muito pouca frequência é praticado.

Quando de fato tentamos reconhecer e nos comprometer com nossa responsa-habilidade, o mundo oferece uma resposta — poderíamos dizer que os Rigdens respondem. Pequenas formas de reconhecimento ocorrem: acidentes, sincronicidades, novas possibilidades que se alinham. O sentido de “caminhar na direção certa” é palpável embora nem sempre tangível; é um tipo de apoio real que vem em nosso auxílio.

2. Temos de dar-nos conta de nosso privilégio. A maioria dos que vivem no assim chamado primeiro mundo tem imensos privilégios em relação à grande maioria dos seres humanos que vivem no assim chamado terceiro mundo. Cem dólares não significam necessariamente grande coisa para, digamos, a classe média dos Estados Unidos, mas para a economia do mundo como um todo, onde a maioria dos seres humanos ganha apenas um ou dois dólares por dia, cem dólares é uma grande soma de dinheiro.

Estranhamente, nós, no primeiro mundo, frequentemente vivemos muito mais sob as garras do medo econômico do que nossos irmãos e irmãs que ganham dois dólares por dia. Hipotecas, dívidas no cartão de crédito, apólices de seguro de nossas casas e carros (para não mencionar as casas e os carros), garantias, fianças, contratos legais, descontos no iPod, bilhetes de estacionamento, liberação do seguro, avaliações de crédito, a inscrição no curso de golfe e cupons de suco de laranja se tornam uma pilha enorme de obrigações. Sentimo-nos presos e com medo para fazer qualquer outra coisa a não ser mantê-las. E assim nossa força vital é direcionada para manter primariamente essas coisas, tornando-nos irresponsavelmente responsáveis.

Que poderíamos dar a nossa vida uma direção inteiramente diferente — e com propósitos muito diferentes —, isso é dar-nos conta de nosso privilégio. Identificar e reconhecer nosso privilégio exige coragem, pois isso começa a dissolver a sensação de que somos “especiais”, de que somos qualificados para o que temos e que isso sempre estará lá.

Dizendo de maneira simples: os dralas não preferem os covardes, ao passo que qualquer expressão de coragem para tornar-se mais vulnerável irá potencialmente atrair os dralas. Reconhecer nosso privilégio significa tornar-se mais vulnerável. O princípio do rigden — como princípio do drala absoluto — é a sensação autoexistente de destemor que encontramos em nós mesmos. À medida que nos tornamos corajosos, nós nos tornamos ungidos — ou autoungidos — com coragem, e o processo da coragem cresce a partir de si mesmo.

3. Temos de começar a simplificar e a arriscar. Quando nos damos conta do “luxo de experimentar a realidade”, simplificar não é uma dificuldade, e sim algo natural — e as coisas naturais tendem a ir muito bem se permitimos. Simplificar fornece a base para arriscar. A maioria de nós no primeiro mundo conta com muito mais recursos disponíveis do que a vasta maioria da humanidade. Temos não apenas a possibilidade, mas também a responsabilidade de arriscar parte de nossa assim chamada segurança em benefício de encontrar e assumir nosso lugar e, por sua vez, ajudar os outros.

4. Suplique por visão e apoio. Se não temos a disposição de simplesmente arriscar, renunciar a nossos privilégios e assumir responsabilidade, é pouco provável que nos ocorra suplicar por uma visão, e muito menos que recebamos uma. Por sua vez, se temos essa disposição, já possuímos uma visão; visão é render-se àquilo que nosso coração deseja. Essa não é a visão do ego, que é sempre um “querer” que nos trará conforto. Uma visão terá conosco um caminho, mas ela virá junto com uma maneira curiosa de fornecer os meios necessários. Apenas suplicar ao desconhecido é um ato de coragem e um vínculo com a visão.

O que é visão? É a verdade do coração humano, que existe em um agora fora do tempo e que nunca pode ser descoberto pela esperança e pelo medo.

Foto: Bill ScheffelFoto: Bill Scheffel

Texto publicado por Dharma/Arte em acordo com o autor. © 2009 Bill Scheffel. Todos os direitos reservados. A reprodução total ou parcial, sem autorização escrita do autor, é estritamente proibida.
Visite o site de Bill Scheffel: http://westernmountain.org/

Trad. Carlos A. Inada.

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O princípio do drala (2): o luxo de experimentar a realidade | 2009 | Uncategorized | Tags: , , , | Comente




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