O s i m b o l i s m o d a e x p e r i ê n c i a
Chögyam Trungpa
“O simbolismo não tem de ser poético, ou espiritual, ou místico; ele é a verdade comum que acontece na vida cotidiana.”
Foto: Douglas Dickel
English version: http://bit.ly/927ily
O tema do simbolismo não interessa apenas a artistas ou a historiadores da arte, e sim a todos que gostariam de compreender e desenvolver a si próprios.
O objetivo não é ensinar uma série de truques, mas ajudar-nos a compreender algo sobre nós mesmos, nossa visão da vida e o mundo dos fenômenos em geral. Por sua vez, também poderíamos entender como aplicar essa visão de maneira audiovisual.
O simbolismo baseia-se naquilo que experimentamos de maneira pessoal e direta em nossa vida: dor, prazer, o que quer que seja. Desse ponto de vista, o simbolismo é um estado da mente.
Primeiramente, antes que saibamos algo a respeito de qualquer coisa, temos problemas com nossa motivação. Se vemos o mundo todo como um material bruto, como uma simples tela em branco, um simples pedaço de madeira, ou como um monte de argila — qual é a sua relação conosco?
Aquele pedaço de tela ou de argila, sendo um objeto inanimado, não possui nenhum interesse pessoal ou desejo de dar a si mesmo a forma de uma pintura ou escultura. No entanto, como seres humanos, temos ideias a respeito de como nossa vida deveria ser, como nossa compreensão deveria ocorrer. Somos então pegos em um dilema: queremos compreender, mas também gostaríamos de dar ao universo uma nova forma, de acordo com nossas próprias expectativas.
Existem duas visões fundamentais do simbolismo: a teísta e a não teísta. O simbolismo teísta é uma constante confirmação autoexistente; isto é, sempre que existe simbolismo, nós existimos e nosso mundo existe.
No caso de um simbolismo não teísta como o budismo, nós não existimos, o simbolismo não existe e o universo não existe. Isso é absolutamente chocante! “Como podemos ir além disso?”, poderíamos perguntar. Mas na verdade não temos de ir além. Em vez de tentar ir além, tentamos mergulhar nisso.
A noção fundamental do simbolismo não teísta é a de que o que quer que exista em nossa vida — nosso nascimento, nossa morte, a doença, o casamento, nossas aventuras no mundo dos negócios, a aventura de nossa educação — se baseia em algum tipo de simbolismo. Esse tipo de simbolismo pode não ser as visões vívidas que vemos por afinar nosso sistema com um estado místico da mente, como auras fantásticas com símbolos em seu interior.
Na verdade, do ponto de vista do não-teísmo, tais percepções são vistas como bobagens. Talvez precisemos descansar ou tomar mais um café. Não perseguimos nenhum tipo de aventura grandiosa e colorida, explosões cósmicas de cores múltiplas, ou visões fantásticas. Procurar mensagens mágicas, em oposição a ter uma relação direta, cria uma barreira à compreensão do simbolismo.
Na disciplina não teísta do budismo, não glorificamos aquilo porque queremos confirmar isso. Em vez disso, simplesmente seguimos em frente. Não estamos negando Deus, mas apenas tentamos simplesmente abordar a realidade da maneira mais simples possível. Uma tartaruga anda e carrega uma pesada carapaça; uma vaca caminha por pastos verdes, depositando seu estrume; pombos fazem ruídos próprios e vivem nos tetos. As coisas têm seu próprio lugar. Não têm de ser particularmente comandadas pelo mais elevado ou pelo maior. As coisas são como são, comuns e simples. Aparentemente, essa é uma visão muito simplória — mas na verdade é algo muito profundo e extremamente amplo.
O simbolismo usualmente chega em mensagens. É uma relação muito simples e direta: eu e meu mundo. Poderíamos esquecer o céu, ou Ele, ou Ela. Isso torna tudo extremamente simples: não há um Grande Irmão nos observando. Símbolos de todos os tipos ocorrem ao longo de nossa vida, e quer acreditemos ou não, o símbolo mais penetrante e poderoso em nossa vida é a dor.
Esse desconforto ou dor baseia-se em um sentido geral de incerteza, que tende a trazer lampejos de memórias muito poderosas a nosso coração. Temos nossa própria vida para viver: nossos parentes, marido, esposa, filhos, nossa máquina de lavar, nosso carro, o que quer que nos afete. Todos os tipos de coisa acontecem, e toda essa confusão tem lugar na terra. Assim, o simbolismo do sofrimento é muito importante e realista.
Reclamações acontecem exatamente aqui, não lá em cima ou embaixo, mas no meio, onde estamos vivendo, onde de fato estamos tendo a experiência de nossa vida, sobre esta terra em particular. Não estamos debaixo da terra e não estamos no ar — mesmo que as pessoas se fascinem com o fato de tibetanos poderem levitar, como um velho e excêntrico cavalheiro inglês que certa vez me escreveu e disse que queria criar um laboratório para que tibetanos levitassem por trás dos vidros, mas seu plano não vingou.
“Toda atividade é simbolismo fundamental. O universo está constantemente tentando chegar até nós para dizer ou ensinar algo,
mas nós o rejeitamos o tempo todo.” Foto: Douglas Dickel
O sofrimento fundamental é uma base muito poderosa, e é a base da atitude humana em relação ao simbolismo. O único simbolismo imediato que podemos experimentar é a dor. Ela é a mensagem direta em que temos estado constantemente envolvidos ao buscar todos os tipos de prazer — e quando a busca do prazer se torna nosso tema, isso automaticamente oferece um ponto de referência para a dor. Podemos nos sentir relativamente bem, sem nada em particular do que reclamar. Mas então gostaríamos de entreter-nos mais. Vamos ao cinema, mas o filme é péssimo; decidimos então ir a um restaurante, mas a comida não é tão boa — ou assistimos a um grande filme e temos uma refeição fantástica! Tudo isso é uma expressão da dor fundamental.
A existência em nossa mente da dor fundamental é extremamente poderosa e é difícil nos livrarmos dela. A dor fundamental envolve um sentido de incerteza, queremos muito tentar fazer o melhor. Há muita luta acontecendo. Dizemos a nossos amigos que tudo vai bem, que não temos problemas; no entanto, no mais profundo de nosso coração, algo está rangendo, no processo de destruir-nos, o tempo todo. Embora possamos estar nos divertindo, mesmo assim algo está rangendo, como o ranger de dentes. Basicamente, nós nos sentimos capturados por nossa vida. Não podemos nos livrar disso, estamos presos nisso. Não queremos mergulhar nisso, talvez seja demais para nós. Assim ficamos enredados no meio o tempo todo.
Tentamos o melhor que podemos, mas ainda assim não chegamos lá. Quer estejamos em um estado de felicidade, ou de dor, ou um estado acinzentado em que tudo está ok — aquela inquietação fundamental está sempre lá. Podemos tentar colocar a culpa por nossa dor no passado, mas o que estamos experimentando está no presente, aqui e agora. Mesmo que nossa dor tenha se desenvolvido no passado, é impossível mudar isso. Estamos presos em nosso pensamento habitual, em nosso mundo habitual tal como ele é. Temos de tomar o que nos é dado. Este é nosso mundo, quer gostemos dele ou não. Como dizem: “América — ame-a ou deixe-a”. Esse é um grande simbolismo. A bandeira norte-americana: você não pode tomá-la para si, não pode deixá-la, ela está sempre lá.
A ideia usual que as pessoas fazem do simbolismo é que é algo exterior a elas, como um sinal de trânsito ou um outdoor, algo que lhes fornece sinais, talvez de significado religioso. Isso não é verdade. O simbolismo está conectado com nosso eu, nosso ser interior. Em outras palavras, somos o maior símbolo de nós mesmos. Isso é simbolismo.
Frequentemente não queremos ouvir nossa voz gravada, e se vemos fotografias nossas, ficamos embaraçados. Pensamos que poderíamos estar melhores, e não queremos ver como parecemos do ponto de vista de outra pessoa. No entanto, talvez devêssemos olhar mais atentamente. Somos uma caricatura de nós mesmos e um símbolo de nós mesmos. Em si mesmo, tudo é sua própria caricatura. Isso é o próprio simbolismo, o simbolismo da própria experiência.
Por exemplo, quando criamos um símbolo visual, primeiramente ele se apresenta a si mesmo. As ideias vêm depois. Esse é o ponto. Se decoramos uma sala, isso fala por si mesmo. Depois, as pessoas têm sensações conceituais ou metafísicas sobre isso. Assim, tudo se sustém por si mesmo; no que concerne a nós, somos um símbolo de nós mesmos.
A dor tem lugar o tempo todo, e o prazer tem lugar o tempo todo. O problema é que não queremos realmente nos relacionar com a realidade das coisas como são. Não queremos nos relacionar com esse tipo de simbolismo, mas ele está sempre aqui. Temos de compartilhar o significado do simbolismo pessoalmente, o aspecto de dor e prazer do simbolismo, definitivamente. Do contrário, não podemos discutir o significado do simbolismo; não temos nada para falar.
O simbolismo fundamental da dor e da fixação por ela atravessa toda a nossa vida. Existe simbolismo quando acordamos, quando nos sentimos sujos e queremos tomar banho, quando tomamos banho e nos sentimos frescos, quando temos fome, quando tomamos nosso café, bacon e ovos mexidos, torrada e geleia, possivelmente um waffle ou panquecas, e quando temos a disposição de encarar o dia depois de um caloroso café da manhã.
Isso tudo é simbolismo. A ideia de café, e na verdade a palavra café, é muito provocante, é um mantra. Panquecas, ovos, bacon. Isso é tudo extremamente poderoso, muito poético, embora não queiramos devanear a respeito de ser um poeta. Tudo o que acontece em nossa vida se relaciona com algum tipo de simbolismo.
Nossa simples vida cotidiana poderia ser envolvida por esse tipo de afirmação o tempo todo, mas nós a rejeitamos como algo puramente mundano. Nós a vemos como uma terrível confusão e esquecemos o quadro mais amplo. Tomamos nosso café e comemos bacon e ovos, apenas para nos vermos livres. Então vamos para a sala de meditação e nos sentamos em nossa almofada e pensamos que aquilo talvez seja uma grande coisa para nós.
Seja como for, o simbolismo não funciona dessa maneira. O ponto fundamental do tantra é o interesse e a consciência de toda atividade em que estamos envolvidos em toda a nossa vida, a cada momento.
A cada momento, cada movimento nosso tem uma qualidade provocativa, que faz pensar. O universo está constantemente tentando chegar até nós para dizer-nos ou ensinar-nos algo, mas nós o rejeitamos o tempo todo. Ao categorizar nossa experiência como mundana e sagrada, boa e má, significativa e insignificante, estamos rejeitando o simbolismo, direito e esquerdo, o tempo todo. Estamos rejeitando o quadro todo. Ao inserir tudo em categorias e compartimentos, nada resta em nossa vida a não ser nossa própria dor. Mas essa dor não é realmente uma dor produtiva, como a dor fundamental da qual falamos. Em vez disso, apenas definhamos e nos reduzimos a um grão de areia. Isso não é realmente nada romântico, é algo terrível. No final, é como se nossa unha encravada se tornasse monstruosa e nos devorasse, não só o dedão do pé mas nosso corpo inteiro e nossa visão energética expansiva. Tudo se desgrenha.
O ponto fundamental é que temos muitas, muitas possibilidades de simbolismo: cada atividade que ocorre é simbolismo fundamental. Gostaria que vocês realmente apreciassem o mundo ao seu redor, e começassem a entender os fatos e as figuras, as realidades fundamentais. Há muita coisa acontecendo. O simbolismo não tem de ser poético, ou espiritual, ou místico; ele é a verdade comum que acontece na vida cotidiana.
Há sempre algum tipo de mensagem ocorrendo. Que mensagem? Não sabemos. Isso é com vocês. Não existe um dicionário ou uma enciclopédia fantástica. Isso é apenas um lembrete de que qualquer atividade em que estejamos envolvidos — fumando um cigarro, mascando um chiclete — tem algum tipo de significado. O ponto é simplesmente que não deveríamos deixar as coisas que fazemos escaparem. Deveríamos ter a experiência do que fazemos, no entanto, sem sermos solenes, como se fôssemos escrever um livro a respeito. Não quero fazer disso um devaneio. O simbolismo budista é tanto único, em sua abordagem não teísta, como muito comum. Em termos gerais, é simplesmente nossa situação de vida — vida e experiência, vida e experiência —, muito simples e direta.
Foto: Douglas Dickel
Texto publicado na revista Shambhala Sun, e adaptado do livro Dharma/arte: a percepção verdadeira, de Chögyam Trungpa, cuja edição brasileira será lançada por Dharma/Arte em 2010. Edição original © 1996 by Diana J. Mukpo. Título original: Dharma art. Segunda edição norte-americana © 2008 by Diana J. Mukpo. Título original: True perception: the path of dharma art. Publicado originalmente por Shambhala Publications. Para mais informações sobre o livro, entre em contato conosco. Trad. Carlos A. Inada.







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