ação, compaixão, criatividade

Margot Becker

Foto: Margot BeckerFoto: Margot Becker

Por muito tempo quis iniciar uma discussão sobre ação compassiva no mundo no sangha de Shambhala, linhagem budista iniciada por Chögyam Trungpa Rinpoche. Meses atrás, tive essa oportunidade. Recebi de Richard Reoch, presidente de Shambhala International, uma carta sobre uma campanha para obter recursos financeiros. Fiquei desapontada porque — mais uma vez — a solicitação dizia respeito apenas a melhorar nossos centros, nosso currículo, nossa infraestrutura. Embora esses projetos sejam da maior importância, sempre fiquei triste — e talvez um pouco irritada — por não estarmos trabalhando juntos, coletivamente, para trazer nossa compaixão, energia, recursos e amor para todos aqueles que estão sofrendo no mundo. Então escrevi ao presidente Reoch, que enviou uma gentil resposta. Este texto é uma continuação dessa conversa, e espero que muitos de vocês se juntem a ela.

Dizendo de maneira simples, penso que nosso sangha não está fazendo o suficiente pelos outros. Como vejo, em sua maior parte nosso sangha tem um conforto razoável. Não vivemos em uma região em guerra. A maioria de nós não enfrenta a fome no dia-a-dia, e não temos de assistir a nossas crianças indo para a cama, noite após noite, com o estômago vazio. A maioria de nós tem uma cama para dormir, sem depender de abrigos ou das ruas. A maioria de nós não tem empregos em que recebe algumas poucas moedas por dia. Não estamos em prisões. E, é claro, temos a grande boa sorte de ouvir e praticar o dharma. Não é essa a situação de muitos outros em todo o mundo.

Nas solicitações de recursos para nosso sangha, comecei a sentir o cheiro de um “eu coletivo”. Queremos tornar nossa própria comunidade segura e forte. E, ao mesmo tempo, não pedimos doações para outros trabalhos, que beneficiem aqueles que estão em perigo, ou que enfrentam o medo, a necessidade e a vulnerabilidade. E, indo além de doações, não trabalhamos juntos para fazer com que essas ações aconteçam.

Quando conversei com o presidente Reoch a respeito disso, ele me contou dos maravilhosos trabalhos que membros do sangha fazem individualmente e mostrou-me uma página na internet que descreve alguns desses esforços inspiradores. No entanto, sinto que uma boa comunidade budista pode e deve fazer esforços coletivos para chegar àqueles que sofrem. Se não estou enganada, esse é o grande trabalho do mahayana que ninguém de nós pode se permitir deixar de lado em sua prática. E devo deixar mais claro: nosso sangha — tão inspirado pelo poder transformador da compaixão — precisa se dedicar a isso.

Acredito que com o coração aberto e alguma criatividade, todo grupo budista pode criar e levar adiante maravilhosos atos de gentileza. Poderíamos ser desafiados a abrir os olhos para as realidades ao nosso redor, pensar criativamente sobre como lidar com esses problemas, abrir a carteira para que tenhamos os meios materiais de realizar nossos projetos e oferecer a energia necessária para fazer as coisas acontecerem. Isso seria uma oportunidade para que todos nós tenhamos clareza em nossa visão, assumamos responsabilidade e manifestemos a compaixão ativa de guerreiros no mundo.

Diversos projetos vêm à minha mente sem muito esforço — projetos em nossa própria cidade… projetos no Tibete e na Índia… projetos que ajudem crianças e idosos ou mesmo pessoas comuns que enfrentam dificuldades em seu dia-a-dia… projetos que ofereçam alimento, roupas, escola, conforto… projetos que ofereçam aquilo que valorizamos tanto — instrução de meditação e a sabedoria do dharma. Mas meus pensamentos individuais são provavelmente menos interessantes do que aqueles que podem surgir coletivamente. Pessoalmente, fico curiosa — e excitada — para conhecer o jardim imensurável que florescerá quando nós, como um sangha, plantarmos as sementes da beleza e do amor coletivos.

Tenhamos inspiração… e comentem abaixo com seus pensamentos e sensações. Ki ki! So so!

Atos simples de fé cega
Margot Becker

Foto: Douglas DickelFoto: Douglas Dickel

Conheci Carlos, idealizador de Dharma/Arte, cerca de um ano atrás, depois que ele leu “Ação, compaixão, criatividade”, artigo que eu havia escrito sobre ação compassiva no mundo. Desde então, começamos a corresponder-nos a distância, entre São Paulo e Nova York. Discutimos sobre arte, meditação, obtenção de recursos e sobre o potencial criativo bloqueado por pensamentos e sentimentos negativos.

Por muitos anos, fui uma obsessiva escritora de ficção. Antes disso, dediquei-me à dança moderna. Não tenho me dedicado a esses amados amigos há muito tempo. No entanto, existe ainda um ato de criatividade que venho explorando. Tenho muito a dizer em poucas palavras.

É tarde da noite. Venho adiando este texto há semanas, talvez meses. Sinto-me honrada por escrevê-lo, por estar em companhia dos importantes professores e artistas que Carlos vem publicando aqui. É noite. Por muito tempo, venho pensando sobre a escuridão.

A época em que desisti de escrever — disse a mim mesma que queria aprender a escrever a partir de outro lugar, queria aprender a escrever a partir da luz — coincidiu com o começo de minha prática de meditação e foi um resultado direto dela. Ainda que pense existir muito espaço em minha vida para escrever e dançar — espaço que espero poder honrar um pouco melhor no futuro do que no presente —, abrir mão de minhas disciplinas criativas fez com que direcionasse minhas energias criativas para um nível mundano e mesmo assim fascinante, um nível que se manifestou não em romances ou na dança, mas em atos simples que talvez tenham a duração de poucos segundos, um segundo, ou menos. Estando atenta e talvez pegando carona na onda, se consigo acompanhá-la enquanto ondula pela orla. Eventualmente, com a prática, conseguimos fazer uma escolha melhor naquele momento minúsculo e eterno, escrevê-lo em uma página mais permanente que o papel, e essa escrita poderá afetar… alguém… em algum momento… em algum lugar…

Estes são meus atos simples. E quero agradecer a Carlos por ter-me pedido para escrever. E, mais que isso, quero dizer-lhe quanto me comove seu próprio ato simples de fé cega, que foi apenas o de procurar-me, procurar-me novamente com persistência paciente diante de minha formidável fuga, por seu brilho vibrante e alegre, um pedaço da luz de São Paulo em uma noite escura.

Este é o primeiro de uma série de textos escritos por leitores ou parceiros de Dharma/Arte, neste blog aberto à participação de todos.

Margot R. Becker é praticante de meditação desde o ano de 2000. Trabalha como captadora de recursos para organizações sem fins lucrativos na cidade de Nova York, em todos os Estados Unidos e internacionalmente. Trad. Carlos A. Inada


 

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Ação, compaixão, criatividade | 2009 | d/a magazine | Comentário/Comments (0)
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