teatro sagrado

Lee Worley

Foto: Douglas DickelFoto: Douglas Dickel

Apesar das diferenças em seus estilos e em seus trabalhos, o que é consistente nas ideias desses líderes teatrais é que a atuação, conduzida por atores, tenta empreender um processo de transformação, dos atores e/ou do público. A missão do teatro sagrado, tanto asiático como ocidental, tradicional ou inovador, é atuar como veículo de transformação.

Imagine que você acorde na cidade da Ática no ano 498 a.C., pouco antes do amanhecer em uma fresca manhã no final de março. Você escuta os cães que se chamam uns aos outros. Um galo canta por perto. A fumaça vinda da cozinha do vizinho chega até a sua janela. Você se veste depressa, come uma papa fria e começa a soltar a voz enquanto sai de casa e caminha pela calçada. Da rua você vê o sol iluminando o topo das colinas. Sente-se aliviado por não estar atrasado. Outras pessoas correm apressadas na mesma direção, algumas sozinhas, outras com um companheiro ou em grupos. Todos seguem em direção ao teatro. Você continua sua suave vocalização, com a esperança de que ninguém perceba. À frente está uma ruidosa família. Embora hoje seja o terceiro dia das festas dionisíacas, você acha inapropriado que as pessoas se comportem como se isso fosse um convite à balbúrdia. Você caminha até uma estreita rua ao lado para evitá-las, e economiza algum tempo com o atalho. Não há ninguém na viela e você solta a sua voz. Dioniso está com você; hoje você está em boa forma. Você gostaria que a peça de Cérilo fosse mais potente e, de maneira egoísta, que os juízes premiassem atuações e não somente peças. Mas não importa muito. Toda a cidade assistirá à peça hoje e você atuará para eles!

Ao chegar ao local onde se encontrariam, você e outros atores conduzem um ritual em que transformam o seu eu cotidiano em mensageiros de Dioniso. Ao levantar sua máscara, você sussurra uma prece para que Dioniso fale através de você. Juntos, todos na companhia compartilham um pão e oferecem uma taça de vinho consagrado no altar antes de entrarem na orquestra (ou local de dança) para iniciar a oferenda do dia.

É agradável imaginar que atuar na Grécia antiga era um dom sagrado, e que os que eram chamados a atuar considerassem a tarefa um privilégio. No entanto, nunca saberemos como os atores se preparavam. Embora os historiadores sugiram que esse era um teatro criado para honrar os deuses, tudo o que resta para nossa contemplação são algumas poucas peças, ruínas arquitetônicas, inscrições e pinturas em vasos. Esse era um teatro sagrado?

Mesmo se fosse, é possível que ocasionalmente um ator tivesse que atuar gripado, ou de ressaca. Que os ensaios fossem marcados por brigas com o autor. Que o ator estivesse precisando de dinheiro ou houvesse deixado a filha com febre, sozinha em casa. Isso também não sabemos.

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Teatro sagrado | 2009 | d/a magazine
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