a habilidade negativa:

jack kerouac e a ética budista

Allen Ginsberg

Cicatriz (Scar), Marcelo Sahea

O interesse de Jack Kerouac pelo budismo começou depois de ele ter passado algum tempo com Neal Cassady, que estava interessado por variações californianas da espiritualidade New Age, em particular o trabalho de Edgar Cayce. Kerouac ridicularizava Cassady como uma espécie de “Billy Sunday de terno” por seu interesse por Cayce, que entrava em transe profundo e então lia os chamados registros Akashic e dava conselhos médicos a pessoas que vinham fazer-lhe perguntas sobre temas que envolviam a reencarnação. Assim, Kerouac estava interessado em retornar às fontes históricas originais. Foi a uma biblioteca em San Jose, na Califórnia, e leu um livro chamado Uma bíblia budista, editado por Dwight Goddard — uma ótima antologia de textos budistas clássicos. Kerouac os leu de maneira muito profunda, memorizou muitos deles, e então continuou a fazer outras leituras e pesquisas e na verdade se tornou um especialista em budismo brilhante e intuitivo. Gary Snyder notou que Kerouac tinha uma inteligente compreensão do pensamento oriental, e também uma compreensão sábia, algo que a maior parte das pessoas não possui.

Kerouac introduziu esse tema a mim na forma de cartas em que me lembrava que o sofrimento era a base da existência, o que é a primeira nobre verdade no budismo. Na época eu era um intelectual liberal progressista mais ou menos de esquerda, e sentia-me insultado quando Kerouac dizia que o fundamento real da existência era o sofrimento. Pensava que isso era um insulto pessoal e não percebia que ele apenas me dizia o que havia compreendido ser a natureza fundamental da vida.

Há no budismo esta doutrina das três marcas da existência: primeira, que a existência contém sofrimento; em iídiche, a existência contém tsuris, sérias dificuldades. Nascendo, como o poeta Gregory Corso diz, como “uma bolsa d’água peluda”, teremos alguma dificuldade antes de deixar nosso corpo, alguma irritabilidade ou desconforto. Ainda que não gostemos da palavra sofrimento, temos de aceitar que a existência contém algum “desconforto”. A definição tradicional diz que, tendo nascido, a inevitável e derradeira consequência é a velhice, a doença e a morte, bem descritas por Kerouac. Isso é inevitável.

A segunda característica da existência como apresentada no dharma do Buda é a impermanência — a transitoriedade de nossa condição; o fato de aquilo que aqui temos ser como um sonho, no sentido de que é real enquanto está aqui. E assim Kerouac diria: “Volte em um milhão de anos e diga-me que isso é real”. Ele possuía um senso de realidade da existência e ao mesmo tempo um senso de irrealidade da existência. Para a mente ocidental, isso é uma contradição e uma impossibilidade. Mas, na verdade, isso não é impossível, porque é a verdade; este universo é real, e é ao mesmo tempo irreal. Isso é conhecido no budismo como sabedoria coemergente, o fato de forma e vacuidade serem idênticas. Essas são ideias básicas do budismo. Encontraremos a terminologia do sunyata, vacuidade dentro da forma, em todos os escritos de Kerouac do período intermediário, especialmente em Mexico City blues. A ideia de transitoriedade, de impermanência, não é uma ideia proveniente do Himalaia, e não é uma ideia oriental, é uma ideia ocidental clássica. Gregory Corso já parafraseava Heráclito: “Não podemos entrar no mesmo rio uma única vez”, lembrando-nos de Heráclito: “Não podemos entrar duas vezes no mesmo rio”. Corso avançava com um movimento poético.

[...]

O restante do artigo somente está disponível a membros apoiadores e voluntários de Dharma/Arte.

Clique aqui para fazer seu login, e para ler o artigo, clique aqui.

Seja um membro apoiador de Dharma/Arte

A habilidade negativa: Jack Kerouac e a ética budista | 2009 | d/a magazine
Login