uma intenção inabalável:

entrevista com philip glass

Philip Glass fala sobre Gandhi, arte, budismo, cristianismo, justiça social e compaixão

Foto: François BouchetPhilip Glass na Monumenta 2008, no Grand Palais, em Paris. Ao fundo, à esquerda, Promenade, escultura/instalação de Richard Serra.
Foto: François Bouchet

Satyagraha, ópera de Philip Glass escrita em 1979, narra os primeiros anos de Mahatma Gandhi na África do Sul. Nascido na Índia em 1869, Gandhi estudou direito na Inglaterra antes que aceitasse ser o mediador em uma disputa entre dois negociantes indianos na África do Sul, onde ele permaneceu por vinte anos (1893-1914), desenvolvendo suas estratégias de transformação não violenta, que ele chamava de satyagraha. Todo o texto de Satyagraha, de Philip Glass, provém do Bhagavad Gita, que é parte da grande epopeia indiana O Mahabharata.

No Gita, o guerreiro Árjuna e seu cocheiro, que é uma corporificação do Senhor Krishna, avançam para um campo de batalha onde exércitos inimigos estão prontos para a luta. De repente, Árjuna é tomado por dúvidas e hesitação. Em resposta, Krishna profere alguns dos maiores ensinamentos espirituais da história mundial.

O Satyagraha de Philip Glass estreou nos Estados Unidos na Brooklyn Academy of Music em 1981, e é a segunda parte de uma trilogia, precedida por Einstein on the Beach e seguida por Akhnaten. Sua ópera mais recente, Appomattox, sobre a Guerra Civil, estreou na San Francisco Opera House em 2007, e em 2008 uma nova produção de Satyagraha foi apresentada em Nova York, na Metropolitan Opera House.

A entrevista a seguir foi realizada na Nova Scotia, no Canadá, por Helen Tworkov, fundadora e presidente da revista Tricycle, cujo conselho de diretores é presidido por Philip Glass. A tradução em português é publicada por Dharma/Arte em acordo com a revista Tricycle.

Quando você se interessou por Gandhi?

Em meados da década de 1960. Estava no Norte da Índia, em Kalimpong. Fiz amizade com o dono de uma loja, o sr. Sarup, que vendia tapetes em um pequeno estabelecimento. Um dia, ele disse: “Quero lhe mostrar um filme”. Ele combinou a projeção em um pequeno cinema local, e então descobri que era um noticiário sobre a Marcha do Sal liderada por Gandhi. Naturalmente, já sabia quem era Gandhi, conhecia os fatos marcantes de sua vida. No entanto, ao vê-lo na tela, minha reação foi: “Meu Deus, quem é este?”. Via aquele pequeno homem em um dhoti, seguido por uma imensa multidão — milhares de pessoas. Ele abriu caminho pela água, tirou a tanga, mergulhou-a no mar e levantou-a. Ao fazer isso, desobedeceu à lei britânica que proibia a colheita do sal.

A Marcha do Sal sempre me impressiona, foi a mais engenhosa peça de teatro de rua jamais concebida.

Sim. Gandhi foi muito inteligente. Isso aconteceu em 1930, quando ele já havia estado na África do Sul por vinte anos. Foi lá que ele desenvolveu as ferramentas para satyagraha, para seus protestos não violentos. As marchas, a lotação das prisões, a queima dos cartões de registro [exigidos dos indianos por uma lei britânica] — tudo o que se tornou o sangue do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos foi desenvolvido por Gandhi na África do Sul na década de 1890.

Como você deu continuidade ao seu interesse depois de Kalimpong?

Na viagem seguinte que fiz à Índia, em 1969-70, fui até a Fundação da Paz Gandhi, em Nova Delhi, e comecei a ler sua autobiografia e outros volumes de seus escritos. Também fui a Ahmedabad — local das greves nas tecelagens em 1918, onde Gandhi havia estabelecido seu primeiro ashram, Sabarmati Ashram, quando retornou da África do Sul.

Durante a vida de Gandhi, as tecelagens eram controladas pela família Sarabhai. Gandhi apoiou os trabalhadores quando estes iniciaram uma greve, embora ele nunca tenha perdido o apoio e a proteção da família Sarabhai. A geração seguinte dos Sarabhai, no entanto, tornou-se patrona das artes. Quis ver os lugares em que Gandhi havia estado e encontrar as pessoas que ele conhecera, e eles ficaram contentes em mostrar-me.

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Uma intenção inabalável: entrevista com Philip Glass | 2009 | d/a magazine
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